"É cedo para encomendar um busto de Sérgio Conceição ou é melhor ir tirando as medidas?"

"Foram muitos os portistas que, no início da época, sofreram com a recusa de Marco Silva, e ainda mais decepcionados ficaram com a chegada de Sérgio Conceição"

Há um conto popular em que um homem decide dar a volta ao mundo à procura da felicidade. Não a encontrou em lado nenhum e, entretanto, envelheceu. Um dia, passou por uma velha casa abandonada e pensou: "Aqui, eu poderia ser feliz." Consertou o telhado, cuidou do jardim, pôs vidros nas janelas, acendeu a lareira e sentiu então aquele não sei quê que lhe faltava e que era a felicidade; e só então reparou também que estava na sua própria casa, a mesma que abandonara para dar a volta ao mundo.

Quer o conto dizer-nos que raramente somos capazes de ver que o tesouro que procuramos, incluindo o da felicidade, está, tantas vezes, debaixo do nosso nariz. A menos que se esteja fechado em casa, de castigo, e obrigado a uma desagradável castidade financeira, como aconteceu nesta época aos responsáveis do FC Porto, os mesmos que, nos últimos anos, deram a volta ao mundo das contratações, à procura da felicidade, e também não a encontraram (e, pelo caminho, gastaram o dinheiro todo). Assim, foi da maneira que olharam para dentro, pois era aí que estava desenhado o mapa do tesouro.

Foram muitos os portistas que, no início da época, sofreram com a recusa de Marco Silva, e ainda mais decepcionados ficaram com a chegada de Sérgio Conceição. Afinal, Marco Silva já foi despedido do Watford e quem brilha na Premier League até é Carlos Carvalhal, vindo também de um despedimento no escalão inferior, enquanto Sérgio Conceição vai erguendo um caminho seguro e ascendente. É cada vez mais difícil saber o que é um bom treinador. O conhecimento é nivelado, pois não há segredos; a diferença fá-la, pois, a conjuntura, ou seja, o modo como certos factores coincidem num dado momento. A conjuntura é tudo, embora seja tão frágil que até a mesma conjuntura pode ser boa numa época e péssima na seguinte, como aconteceu, por exemplo, com Ranieri e o Leicester, ou como está a acontecer com Conte e o Chelsea. E Sérgio Conceição era, afinal, o melhor treinador para aquela conjuntura, pois criou de raiz uma equipa de autor, cuja pujança brota visivelmente da sua orientação e liderança. Talvez ainda seja cedo para lhe erguerem um busto no Dragão, mas convém ir tirando umas medidas.

Só há uma coisa que pode emperrar, aqui e ali, a conjunção feliz. Sabemos que Sérgio Conceição só veio para ensinar, mas seria perfeito se também se dispusesse a aprender a ter calma (ó sim, aprende-se, devagar, mas aprende-se). Na Catedral de Winchester há um vitral com o desenho de um homem refastelado, à sombra de uma árvore, na margem de um rio. Por baixo desse retrato idílico, está uma inscrição: "Estuda para teres calma." Estuda? Sim, não basta que alguém nos bata nas costas e diga "Tem calma" para se ter calma. É preciso estudar, praticar, reflectir, ponderar, e é preciso fazê-lo regularmente, como se faz o treino futebolístico. Talvez seja ainda mais difícil do que ganhar o campeonato, mas, se Conceição for capaz de fazer essa aprendizagem, é certo que os planetas se alinharão numa órbita ainda mais segura e duradoura, sinal de que a felicidade, a tal, está a um passo de chegar.

O ESCRITOR ÁLVARO MAGALHÃES É O AUTOR DA CRÓNICA "VISTO DO SOFÁ", AOS DOMINGOS