RUGIDOS DO LEÃO - A opinião de Samuel Almeida, aos domingos n'O JOGO.
1 - A Superliga acabou mal, ainda, tinha começado. Embora muito esteja por contar, a verdade é que a pressão de adeptos e jogadores no Reino Unido levou ao recuo dos seis dissidentes e de suas administrações.
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Uma prova insofismável, para quem tivesse dúvidas, dos perigos da privatização dos clubes, tornando-os alvo fácil do capitalismo selvagem que tomou de assalto o futebol. Capital americano e chinês que nada entende do jogo, suas origens, e que o quer tornar numa mera commodity para biliões de consumidores espalhados na Ásia e nos EUA. Felizmente para todos nós, o futebol continua por enquanto refém da paixão dos adeptos pelos seus clubes, das rivalidades internas, da competição e da universalidade do jogo.
2 - Ver a UEFA e a FIFA a pugnarem pela defesa do futebol é um exercício de pura hipocrisia. Estas duas organizações têm asfixiado o futebol com a ganância, falta de transparência, desregulação económica e desvirtuamento das competições. O futebol nas últimas duas décadas tornou-se o alvo fácil do capital selvagem e sem cara, da corrupção, de agiotas, de transferências pornográficas e comissões indecorosas, de salários desregulados, de dirigentes sem escrúpulos que tornaram os clubes reféns de toda a gente, menos dos seus sócios e adeptos. O resultado é que os clubes estão falidos, ao passo que uns quantos vão acumulando riqueza. O melhor jogo do mundo passou a ser um produto, com a Champions League como expoente máximo, uma competição desvirtuada nos seus princípios e que de ano para ano acentua a desigualdade entre clubes independentemente da sua história e palmarés.
3 - O caminho, se queremos salvar o jogo, é repensar os quadros competitivos nacionais e internacionais, reduzir custos com salários, regular transferências e impor tetos nas comissões de intermediação, apertar a malha nos conflitos de interesse e tudo o que coloca em causa a integridade das competições. Temos jogos a mais, competição a menos e cada vez mais restrita a uns quantos. A Champions League deixou de estar acessível à maioria dos seus participantes - que aspiram apenas a lá chegar para aceder aos prémios que asseguram a sua sobrevivência - tal como as competições nacionais. Em Itália, França, Alemanha, temos campeões crónicos, tal como sucede na Grécia e na Bélgica. Sem rivalidades nacionais e sem competição, os clubes definharão e o futebol perderá seu caráter universal e os adeptos a sua paixão. O fair-play financeiro é uma treta, como vemos com os casos de PSG e City. Um futebol sem ética, sem escrúpulos, desregulado, sem equilíbrio, sem competição está condenado perante as gerações futuras.
É o tempo de Rúben Amorim voltar aos princípios que o trouxeram até aqui, colocando em campo os jogadores com maior rendimento
4 - Aconteça o que acontecer até final da época, Rúben Amorim e seus jogadores terão sempre o meu apoio, pois deram-nos o direito a sonhar. E detesto ingratidão. Este não é tempo de ter medo de ser feliz, de baixar a cabeça submetidos a um qualquer fatalismo. Mas é o tempo de Rúben Amorim voltar aos princípios que o trouxeram até aqui, colocando em campo os jogadores com maior rendimento. Nuno Santos, Daniel Bragança, Mateus Nunes, TT e Jovane merecem mais minutos, tal como Paulinho merece ser protegido. Aliás, Paulinho ainda dará muitas alegrias, mas Rúben sabe melhor que ninguém que nas horas de aperto o treinador precisa de todos os soldados e precisa de um balneário que acredite na bondade das suas opções. Seja no 11 ou na estratégia para o jogo. Este também é o tempo dos mais experientes - Adán, Feddal, Coates, João Mário, Palhinha - darem a cara, o exemplo e transmitirem confiança aos mais novos. É certo que está tudo mais complicado, mas dependemos de nós. E só dependemos da nossa crença, da nossa vontade, da nossa superação e da resiliência para ultrapassar esta fase menos feliz. E não tenham dúvidas que estamos todos com vocês rapazes! Este é o clube que nunca verga a cabeça.
Nota final. Uma palavra de agradecimento a Miguel Maia, um leão que é um exemplo de atleta e longevidade. E uma palavra para Adán, que já nos deu muitos pontos e merece nosso apoio incondicional.
