O ataque que se prepara à SAD leonina poderá muito bem vir através da compra das VMOC - dívida que será convertida em capital.
Tenho-me pronunciado várias vezes contra a alienação da maioria da SAD leonina, pois trata-se do maior ativo do clube e o controlo do capital é a única forma de assegurarmos que continuamos a ser donos do nosso destino.
"Ouvi com estupefação que seria possível com investimento manter ou recuperar jogadores como Bruno Fernandes ou CR7. Infelizmente não é verdade"
Por outro lado, as promessas e miríades de investimento na equipa de futebol em resultado da alienação da maioria do capital não passam disso mesmo, uma miragem e um embuste.
Não tenham dúvidas que a venda da SAD n(v)os será embrulhada com promessas de títulos e de recuperação de um estatuto europeu, inalcançável no atual contexto competitivo e regulatório. Desde logo pela magreza das nossas receitas televisivas face aos nossos congéneres, e por força das regras de fair play financeiro impostas pela UEFA.
Aliás, ouvi com estupefação na minha sessão sobre governance das jornadas "Sporting com Rumo" que seria possível com investimento manter ou recuperar jogadores como Bruno Fernandes ou CR7. Infelizmente não é verdade. As regras de fair play financeiro impõem um limite anual de 5M€ em termos de déficit operacional (exceto investimentos em formação e infraestruturas) e 30M€ no agregado de um triénio. É assim evidente que o tema para os clubes portugueses não é a contratação de jogadores por 30M€ (ninguém paga a pronto e contabilisticamente o gasto é repartido pela duração do contrato), mas sim a sustentabilidade dos gastos com pessoal face às receitas operacionais. E um salário de 3M€ limpos/época representa mais de 6,1 M€ de euros de encargos para o clube. Quatro jogadores de valia internacional nunca custariam menos de 26 a 30 M€ Euros/época em termos salariais (já para não falar nos problemas de gestão de balneário e inflacionamento de toda a massa salarial). Deixemo-nos, pois, de brincadeiras.
Agora, o ataque que se prepara à SAD leonina poderá muito bem vir através da compra das VMOC. Passo a explicar. O Sporting tem 135M€ de VMOC - dívida que será convertida em capital -, estando com dificuldades em fechar em definitivo o acordo com o BCP e Millennium, que abdicariam de receber o valor nominal dos títulos, recebendo o valor de 0,30 cêntimos. As VMOC têm maturidade até 2026, sendo que o Sporting ou chega a acordo com a Banca para reduzir aquele valor, ou (i) fica obrigado a pagar 135M€ à Banca para conservar o capital da SAD; ou (ii) um fundo qualquer encapotado pode negociar a compra dessa mesma dívida junto da Banca (a um preço maior do que os referidos 0,30 cêntimos), ficando com as VMOC e espera por 2026. E nessa data, ou temos dinheiro para pagar ou perdemos a maioria do capital, pois a SAD leonina tem um capital social de 67 M€, detendo o Sporting 62,8%.
Sendo as VMOC obrigatoriamente convertidas em capital caso não sejam liquidadas até à maturidade (2026), um aumento de capital de 135 M€ elevaria o capital da SAD para cerca de 200 M€, do qual o clube deteria pouco mais de 20%. É isto que está em cima da mesa, não sendo difícil de perceber que estamos à mercê de um ataque hostil, ou do surgimento de uns generosos investidores - idealmente sob a veste sportinguista - disponíveis para ficar com a SAD leonina por 50 ou 60 M€. Basta recomprarem as VMOC aos bancos por um valor acima de 0,30 cêntimos e esperar por 2026. Talvez, assim, se entenda tanto interesse repentino por este tema e talvez assim se entenda a dificuldade em fechar a restruturação anunciada em novembro de 2019. Talvez haja muita gente interessada em dificultar este processo. Veremos quem aparece, quem se traveste de fundo de investimento ou aparece embrulhado numa solução milagrosa para a internacionalização da marca SPORTING. Aceitam-se apostas, pois quando se fala em abutres eles não faltam em Alvalade.
Para os sócios do Sporting, o que importa reter é que até 2026 teremos de reter e guardar uma verba entre 40 a 135 M€ para ficarmos com a SAD. Ou então, podemos esvaziar de interesse o tema das VMOC, realizando um aumento de capital na SAD de cerca de 95 M€ - a ver se os demais acionistas minoritários acompanhariam ou não - ficando o clube com uma participação de mais de 135M€ e imune ao impacto da transformação das VMOC (com os atuais 42, um aumento subscrito via Sporting de 95 elevaria a participação nominal a 137 M€). Isto exige receitas adicionais, talvez financiamento e talvez a participação maciça dos sócios. E exige competência, gestão e estratégia. E exige falar a verdade aos sócios. 2026 é já ali e está a espreitar para nós.
