Só consigo qualificar de uma forma o golo anulado ao Liverpool, aos 90'+2', no dérbi em casa do Everton: roubo! O erro humano é aceitável, mas não há linhas e tecnologia que justifiquem tamanha estupidez
Aleksander Ceferin, presidente da UEFA, alertava esta semana: "Ou a pandemia [do novo coronavírus] acaba, ou o resultado pode ser um desastre absoluto." Julgo que o dirigente esloveno tem razão e muitos clubes podem acabar ou, no mínimo, sofrer abalos terríveis face às enormes perdas financeiras que têm enfrentado.
O que se passou em Goodison Park e que se assistiu pela TV, é o mais recente exemplo de má utilização do videoárbitro e de como pode minar a confiança dos adeptos e levantar suspeitas
Contudo, desportivamente há neste momento uma ameaça tão grande ou maior para a sobrevivência do futebol: a forma como o VAR está a influenciar negativamente o jogo. E isso tem de merecer uma rápida atenção de instituições como a UEFA, mas sobretudo FIFA e International Board, esta última a "guardiã" das leis do futebol.
O que se passou em Goodison Park e que se assistiu pela TV, é o mais recente exemplo de má utilização do videoárbitro e de como pode minar a confiança dos adeptos e levantar suspeitas. O dérbi Everton-Liverpool foi um hino ao futebol pela qualidade das duas equipas, emoção no resultado e não merecia ter sido estragado. Os reds só não venceram a partida, por 3-2, porque o golo de Henderson aos 90'+2' foi invalidado e, sinceramente, só consigo qualificar a decisão de uma forma: roubo! O erro humano é aceitável, mas não há linhas e tecnologia que justifiquem tamanha estupidez. O VAR terá indicado ao árbitro que Sadio Mané, autor da assistência, estaria adiantado no momento do passe de Thiago. Mas as imagens disponibilizadas mostram-nos o avançado senegalês de costas para a baliza em linha com a defesa do Everton, sendo, incompreensivelmente, colocada uma linha no cotovelo (projetado para trás) para o deixar em off-side. Ora, não sendo possível marcar golos com o cotovelo...
Aberrações como esta têm de acabar e há que pensar seriamente sobre foras de jogo de centímetros, olhando a linhas de pés, rabos, ombros e cabeças, sem tomar sequer em consideração se houve qualquer benefício do avançado em relação à defesa.
Gostaria, ainda assim, de recordar que, no dia 28 de junho de 2010, critiquei a teimosia de Sepp Blatter, então presidente da FIFA, por insistir que "as tecnologias não eram necessárias no futebol, porque roubavam a emoção". Defendi então a introdução do VAR para evitar escândalos como os que sucederam nesse dia no Mundial da África do Sul: um golo limpo de Lampard no Inglaterra-Alemanha, não sancionado apesar da bola ter batido no chão mais de meio metro para lá da linha de golo; outro validado a Tévez no Argentina-México, apesar do avançado argentino se encontrar por enorme margem em posição irregular.
Um pouco mais de dez anos depois, o VAR é uma realidade, presente na maioria dos campeonatos e grandes competições, com alguns anos de funcionamento e tempo mais do que suficiente para acertar o passo. Pedem-se decisões mais uniformes e, já agora, que o árbitro de campo não se desresponsabilize de certas decisões: é ele quem manda no jogo e em caso de dúvida deve obrigatoriamente ver as imagens e não emprenhar pelos ouvidos, perdoem-me a expressão.
