DENTE DE LEÃO - Uma opinião de Marcos Cruz
Tal como o leite, as vitórias podem ser magras, gordas ou meias gordas. No Sporting têm sido quase sempre magras, mas o leite produzido em Alvalade deve ser gordo, porque as vacas pastam aquela erva com tal apetite que até levantam a terra.
O relvado de Alvalade é hoje um caso de estudo em matéria de inadaptação, nem o Jesé Rodríguez lhe chega aos calcanhares. Pelos vistos, o número de tapetes verdes do Alvalade XXI já vai em oito, mas o que está mesmo feito num oito é o atual, impróprio para consumo (não bovino) e perigoso, como se percebeu agora claramente com a lesão do Jovane. Rúben Amorim diz que os responsáveis têm feito o que podem. Eu, embora confie nele, acho que Frederico Machado, director-geral da Sport Relva, empresa de manutenção, podia fazer algo que não fez: dizer a verdade. Posto perante o problema, reduziu-o a "0,05% do relvado", ou seja, cinco metros de terreno, mais coisa menos coisa. Lembra um bocadinho aqueles treinadores que vêem jogos diferentes dos de toda a gente e, sobretudo, no paradigma de honestidade que Amorim trouxe para a vida leonina não assenta nada bem, tal como a relva. Mesmo assim, o que se passa sobre ela já é outra história.
Temos apresentado um futebol seguro, coeso, pragmático e adulto, apesar da juventude que em maioria o pratica. Faltará ganhar corpo, como o leite gordo, para que os golos tendam a aparecer com mais naturalidade e frequência. Esperemos que seja uma questão de tempo. Nesta semana, foi importante saber, pela boca de Salgado Zenha, que as contas do clube estão também a caminhar no bom sentido. A esse nível, a política de não estabelecer um nexo causal entre melhoria financeira e compra de jogadores parece-me acertada, tanto mais que o plantel, apesar de curto, dá sinais de elasticidade e rendimento, e tem hoje a bater-lhe à porta dois ou três talentos das camadas jovens, relativamente a cujo trabalho fui aqui um bocadinho injusto, há cerca de um mês, quando escrevi que, nas equipas B e sub-23, não vislumbrava portadores de sonhos. Já percebi que a filosofia vigente não é ganhar campeonatos, mas sim formar candidatos individuais à subida de escalão, e ainda anteontem apreciei a desenvoltura de uns quantos, nomeadamente Rafael Moreira, Rodrigo Ribeiro, Diogo Travassos, Renato Veiga, João Daniel e Diogo Cabral.
Talvez a lógica de premiar o trabalho que presidiu à chamada de João Goulart, um central com pouco de predestinado, tenha impacto positivo nestes jogadores, todos eles detentores de mais e melhores argumentos técnicos. Mas agora é tempo de voltar ao mantra do "próximo jogo", um desafio de Champions, onde precisamos de nos superar para manter aceso o objetivo de seguir em frente. E eu, apesar da relva, acredito.
