Frederico Varandas defende que a previsão de uma segunda volta eleitoral não é uma prioridade. Entendo o presidente leonino. Qualquer um que pense sobreviver no meio da divisão e sem expectativas de uma clara vitória eleitoral pensaria o mesmo. Esse não é, contudo, o interesse do clube
1 - A penosa época do Sporting terminou da pior forma, com mais uma derrota - a 17ª da época, um recorde negativo absoluto do clube - e um 4.º lugar atrás de um Braga por quem pagámos cerca de 12 milhões de euros (M€) para ficar com seu jovem treinador. Seria difícil imaginar pior, depois da humilhação frente a Benfica na Supertaça e Alverca (pasme-se) para a Taça de Portugal. São derrotas a mais e competência a menos. O clube está num plano inclinado de declínio e não se vislumbra capacidade a esta administração para dar a volta ao texto.
Frederico Varandas veio assumir na terça-feira a responsabilidade total pela época e fez bem. Teria feito melhor em estar ao lado do seu treinador na sala de Imprensa da Luz. Mas foi incapaz de apontar o caminho, descansar os sócios com uma estratégia clara e não faltou, claro, está, a desculpa da herança.
2 - Além da deficiente planificação e total ausência de coerência na definição de uma política desportiva, importa que os jogadores ponham a mão na consciência e assumam a sua responsabilidade. Sobretudo os mais velhos. Bruno Fernandes colocara em tempo o dedo na ferida. Falta caráter, coragem, solidariedade e compromisso com o clube por parte de alguns jogadores, sobretudo os mais experientes. Não basta chegar ao final do ano e pedir desculpa. Falta mentalidade vencedora a este plantel, o qual fez uma exibição displicente face ao Setúbal e não quis vencer o derby da Luz. Depois de empatar, a equipa recuou, deixou de pressionar e sofreu o inevitável golo ao cair do pano. Mais que falta de qualidade, falta atitude e compromisso a esta equipa que fez uma época deplorável.
3 - Frederico Varandas veio assumir na terça-feira a responsabilidade total pela época e fez bem. Teria feito melhor em estar ao lado do seu treinador na sala de Imprensa da Luz. Mas foi incapaz de apontar o caminho, descansar os sócios com uma estratégia clara e não faltou, claro, está, a desculpa da herança. Vamos por pontos.
4 - O lema da campanha de Varandas foi "Unir o Sporting" e passados quase dois anos, podemos afirmar que tal desiderato não passa de uma miragem. Dividido entre duas franjas - uma ultraconservadora que apoia esta direção e uma oposição mais resiliente - esta administração mais não fez que arrastar a maioria silenciosa para um estado anímico de profunda descrença e apatia. Se em 2018 o leão estava dividido e ferido, está agora em estado de letargia. A fé, crença e místicas leoninas estão em crise e este mandato é a esse nível um desastre.
5 - Vamos ao tema recorrente da herança. Em 2018, o clube teve 126 M€ de receitas, das quais 91 M€ sem vendas de jogadores e um resultado negativo de 19 M€. Parte do plantel rescindiu e o clube registou mais de 20 M€ com imparidades. Havia um empréstimo obrigacionista de 30 M€ a reembolsar em novembro, 73 M€ de gastos com pessoal, um passivo corrente de 173 M€ e 109 M€ de passivo não corrente (282 M€). A dívida financeira era de 111 M€. Frederico Varandas fala recorrentemente de mais de 200 M€ de obrigações assumidas, mas olhando para as demonstrações financeiras tenho dificuldade em entender esse número.
6 - Olhando para os resultados acumulados até 31 de março de 2020, podemos concluir que esta administração só em vendas de jogadores por si herdados faturou 145 M€, tendo gasto 55 M€ em 16 jogadores, mais 12 M€ em Ruben Amorim, ou seja, quase 70 M€ de euros em época e meia (esta administração entrou em setembro de 2018, não tendo assumido a preparação inicial dessa época). O resultado operacional sem vendas de jogadores foi negativo em 23 M€, o passivo corrente está em 150 M€ e o não corrente em 153 M€. Mas a rubrica de dívida a fornecedores correntes passou de 44 M€ em 2018 para 62 M€ em 2020, tendo a dívida financeira passado de 111 M€ para 133 M€. O valor do plantel recuou de 89 M€ para 66 M€, sendo que anualizando os gastos com pessoal os mesmos ascenderão no final da época a perto de 65 M€.
7 - Chegados aqui - depois do reembolso obrigacionista e do adiantamento das receitas de TV - podemos concluir que a dívida a fornecedores aumentou, o valor intrínseco e potencial do plantel leonino diminuiu - e desbaratou-se perto de 70 M€ em aquisições de jogadores cuja grande maioria não acrescentou valor. Aliás, boa parte é para despachar e essa sim será uma herança para quem vier. Com o valor gasto por esta administração, no passado foram adquiridos os passes de Mathieu, Acuña, Bruno Fernandes, Raphinha e Bas Dost e ainda sobrava dinheiro. Acenar permanentemente com a herança - a qual se tornou efetivamente pesada com os episódios de Alcochete - é uma desculpa para quem se candidatou afirmando ter as soluções financeiras e um profundo conhecimento sobre futebol. Infelizmente não era verdade.
8 - Frederico Varandas defende que a previsão de uma segunda volta eleitoral não é uma prioridade. Entendo o presidente leonino. Qualquer um que pense sobreviver no meio da divisão e sem expectativas de uma clara vitória eleitoral pensaria o mesmo. Esse não é, contudo, o interesse do clube, o qual precisa urgentemente de uma nova liderança, de esperança, um rumo e uma estrutura totalmente profissional. E precisa de verdade, pois espera-nos muito trabalho para reerguer o clube e colocá-lo de forma sustentada na rota do sucesso. Depois desta varanda, só temos uma pequena janela de oportunidade.
