Um artigo de opinião de Ricardo Nascimento
Há decisões que, no futebol moderno, soam quase subversivas. Não são ilegais, não dão direito a comunicado da FIFA, nem motivam reuniões de emergência na UEFA. São apenas raras. Gustavo Sá, médio muito talentoso de 21 anos, capitão do Famalicão, recusou ir para a Arábia Saudita por 18 milhões de euros e, com esse gesto simples, lembrou-nos de algo que parecia esquecido: o futebol ainda pode ser sobre futebol.
Gustavo Sá não é um romântico pobre, nem um milionário entediado. Está naquele ponto intermédio da vida em que já não joga por uma sandes e uma gasosa, mas que ainda pode escolher. E terá escolhido mal, se o critério fosse exclusivamente financeiro. Mas escolheu muito bem, se o critério for identidade, ambição, vaidade profissional ou aquela coisa antiquada de querer ser mesmo bom antes de ser apenas rico.
A Arábia Saudita oferece hoje ao futebol aquilo que os casinos oferecem ao jogador ocasional: luzes fortes, promessas rápidas e a sensação enganadora de que ali tudo é possível. É o all-in permanente. Há quem vá, há quem fique, e há quem diga que vai "só por dois anos" como quem diz que vai "só beber um copo". Nada de moralismos: ir é legítimo, compreensível e, em muitos casos, profundamente racional. O dinheiro, ao contrário do talento, não se lesiona. Mas ficar, quando se pode ir, é outra coisa. É um gesto que obriga a uma pergunta incómoda: e se eu quiser saber até onde chego? Não até onde chega a conta bancária, mas até onde chega o jogador.
Ao recusar, Gustavo Sá não fez um manifesto contra o dinheiro - até porque ninguém recusa 18 milhões com desprezo ascético. Fez algo mais simples e mais raro: adiou. Adiou o fim da história antes do segundo capítulo.Há nisto uma confiança curiosa, quase irritante, porque não é verbalizada. Não houve discurso edificante, nem frases para Instagram. Houve silêncio e um "não". E confiança verdadeira é isto: não é proclamada, é praticada, sobretudo quando dói.
Num futebol feito de pressa - para vender, comprar, enriquecer e sair -, um jovem que decide ficar para se testar é uma anomalia estatística. Um erro do sistema. Um lembrete de que o jogo, antes de ser mercado, já foi desafio.
Talvez um dia vá para Inglaterra, Espanha ou Itália. Talvez se engane redondamente. Tudo isso é possível. Mas, por agora, há algo de profundamente satisfatório em ver alguém dizer: "ainda não". Ainda quero saber se sou mesmo bom. Ainda quero jogar contra quem me obriga a ser melhor.
E entre nós: ainda bem que ele ficou. Porque, por mais que um dia renda à conta bancária, ver um miúdo optar pelo futebol de qualidade - com risco e desafios - em vez do cheque certo... isso é de homem. Ou então é apenas de alguém que sabe que dinheiro compra muitas coisas, mas não compra respeito, esse, quando muito, conquista-se a jogar.

