OPINIÃO >> Frederico Varandas parece um militar para os bons momentos, ou seja, na reserva
1 - As notícias desta semana sobre o número de infetados em Alvalade - futebol profissional, suspensão do vólei e suspeitas no basquete - são motivo de forte preocupação, sobretudo porquanto temos dois jogos europeus à porta (o play-off é a 1 de outubro) e o período mínimo de isolamento (14 dias) antecipa a indisponibilidade de vários titulares. Uma eventual eliminação europeia custaria entre 9 M€ a 10 M€, um desastre no atual contexto financeiro do clube. E dada a relevância do tema, impunha-se uma palavra da administração leonina sobre os procedimentos adotados, periodicidade dos testes realizados e possíveis explicações para o sucedido. Não se entende este sistemático silêncio sempre que as notícias não são boas. Frederico Varandas parece um militar para os bons momentos, ou seja, na reserva.
2 - Acompanho por inteiro as críticas formuladas por Dias Ferreira a propósito do formato das próximas Assembleias Gerais, as quais não serão precedidas de discussão. Bem sei que vivemos um contexto de pandemia, mas não é menos verdade estes órgãos sociais são adeptos da desmaterialização das assembleias gerais e que são várias as vozes a pronunciarem-se sobre a instabilidade e ruído permanente no clube. Para esta franja de sportinguistas, tudo se resolveria com o i-voting e até a venda da SAD, pois um dono silenciaria uma massa adepta cansada de décadas de dislates, opções erráticas, má gestão e resultados desportivos e financeiros paupérrimos. Não entender o pulsar dos sportinguistas só aumentará o ruído.
3 - A eliminação do Benfica da Liga dos Campeões mostra à sociedade a miragem de um projeto de dimensão europeia em Portugal. E mostra, igualmente, a inexequibilidade de certos investimentos sem pôr em causa as regras de fair play financeiro, o que inviabiliza por completo as alegadas vantagens decorrentes da venda da SAD leonina. Sem receitas operacionais recorrentes, não há modelo em Portugal que aguente os salários pagos lá fora e o Benfica é um bom exemplo disso mesmo.
4 - O setor do desporto poderá vir a atravessar uma crise com dificuldades visíveis ao nível da tesouraria e da sua sustentabilidade, com obrigações contratuais assumidas por vários exercícios (os custos com pessoal e amortizações representam parte significativa dos seus custos operacionais), sendo-lhe aplicáveis restrições de ordem de saúde pública que condicionam a sua atividade e níveis de receita. Esta realidade passível de se prolongar no tempo justifica, de um ponto de vista de política fiscal, a adoção de medidas excecionais que ajudem clubes profissionais e amadores a sobreviverem durante este período.
5 - Em termos de medidas proponho o seguinte: (I) amortização acelerada em 50% com custos de aquisição e formação de atletas, com exclusão das comissões de intermediação, as quais não deveriam ser aceites como gasto dedutível quando acima de 5% do valor do contrato; (II) a atual exclusão de 50% das mais-valias geradas com a venda de atletas ser alargada para 100% sendo, ainda, elegíveis os montantes obrigatoriamente alocados por clubes ao pagamento de dívida bancária; (III) criação de um crédito fiscal extraordinário para investimentos em infraestruturas desportivas alocadas ao setor da formação; (IV) majoração fiscal a patrocínios concedidos em 2020/2021 a sociedades desportivas e associações de utilidade desportiva, criando um incentivo adicional ao financiamento de clubes no contexto da pandemia; e finalmente, (V) a introdução de um crédito fiscal em IRS e IRC - dedutível à coleta destes impostos nos próximos 3 anos no montante de 30% com o limite máximo de 5 000 Euros anuais - para donativos efetuados a clubes desportivos do setor não profissional, criando um incentivo para as comunidades apoiarem os seus clubes e assegurar a sobrevivência destas entidades fundamentais na coesão social e formação de muitos jovens.
6 - Os processos judiciais envolvendo magistrados, clubes, dirigentes são graves e colocam em causa a credibilidade desta indústria, o que justificaria, aliás, um maior distanciamento de quem ocupa cargos de relevância política. Se o futebol não se reformar e tornar social e eticamente responsável, dificilmente poderá aspirar a políticas públicas para as reformas que o setor necessita. Isso faz-se com uma nova leva de dirigentes, não sendo à toa que o Presidente do FC Porto veio a terreiro desvalorizar a candidatura de Noronha Lopes na Luz. Ele lá saberá porquê.
