O Sporting não precisa de um messias, de um salvador ou de um investidor; precisa, sim, de competência e liderança.
O Sporting entrou numa espiral de conflitualidade sem fim à vista. O conflito com as claques não augura nada de bom para o clube, embora tenha de ser dito alto e bem claro que são inaceitáveis todos e quaisquer comportamentos violentos por parte de sócios e adeptos do clube e que jamais esta ou qualquer Direção pode ficar refém de um qualquer grupo de adeptos. Os GOA são parte do clube, devem ser ouvidos, têm direito a criticar e a manifestar o seu desagrado com os resultados desportivos do clube, contudo não são um contrapoder e não podem condicionar a vida associativa do clube com recurso à intimidação e violência. Mas se isto é verdade, não é menos verdade que as claques do clube contribuíram em muitos momentos para que as equipas do clube tivessem apoio em todos os recintos do país. Neste conflito fratricida, é impossível alguém sair vencedor. E não há inocentes, pois que a instrumentalização destes grupos por Direções e oposição ajudou a criar o monstro que já não cabe na Casinha da JL.
Sendo esta a epiderme de um problema bem mais profundo, não creio que seja possível o clube continuar muito mais tempo neste clima de permanente instabilidade, incapaz de definir e construir um rumo que possa reunir um amplo consenso no clube. Andamos há anos a discutir pessoas e não ideias, afundando o clube em equívocos, falta de estratégia e de liderança. A cada ano que passa estamos mais longe do sucesso, aumentando o fosso para os nossos rivais. É um declínio penoso e perigoso, que tem de ser invertido antes que seja tarde demais. Acima de tudo, corremos o risco de perda de identidade, levando a uma inevitável quebra de militância e capacidade de atrair talento para o clube. O risco de desenraizamento de uma parte da massa adepta do clube é real e tem de ser combatido. Hoje em dia interrogo-me quem é o profissional de sucesso que está disponível para arriscar a sua carreira em Alvalade. E sem talento, estabilidade, planeamento e uma estrutura altamente profissional, não existem condições para o sucesso.
É tempo, pois, de todos pararmos para pensar, colocando os interesses do clube acima das nossas diferenças. Temos de ser capazes de serenamente discutir o clube e definir um projeto que seja claro para os sócios e transformador. Na minha modesta opinião, esse projeto deve assentar em quatro pilares. Por um lado, uma equipa de futebol assente na formação e um treinador de classe mundial. Um treinador ambicioso, de futebol moderno e arrojado. Numa primeira fase, teremos de reduzir o orçamento em 10 a 15 M€, libertando fundos para o investimento na Academia e na estrutura do clube. Temos de ter a ambição de voltar a ter a melhor Academia e técnicos do país, repondo a rede de olheiros e a capacidade de atrair talento - o segundo pilar. O terceiro pilar consiste em recrutar e dotar o clube de uma estrutura altamente profissional e de excelência. Um conjunto de profissionais transversal ao clube e SAD e que sobreviva à natural rotatividade dos órgãos sociais. Com menos dinheiro que os rivais, só poderemos ser bem-sucedidos se tivermos um clube que disponha de uma estrutura de gestão de excelência. Isso significa investir em talento e investir em tecnologia. E esse investimento mostra-se essencial se quisermos ligar em rede os nossos núcleos, abrindo a porta à sua modernização e maior participação de todos os sócios e adeptos que vivem longe do clube. O quarto pilar consiste numa profunda alteração do modelo de governo do clube. Num primeiro momento têm de ser alterados os estatutos, de forma a viabilizar a realização de uma segunda volta nas eleições do clube, inviabilizando a possibilidade de eleição do presidente sem que este disponha de uma maioria clara.A falta de capacidade de liderança de Frederico Varandas parece-me evidente, tão evidente quanto a sua mera substituição não resolverá os problemas do clube. O Sporting não precisa de um messias, de um salvador ou de um investidor. Precisa, sim, de competência, liderança e de resolver os seus problemas estruturais. Para isso, o clube precisa de tempo e estabilidade para implementar um novo projeto desportivo e um novo modelo de organização. É tempo de falar verdade.
