DENTE DE LEÃO - Opinião de Marcos Cruz
Não vale a pena dizer que o clássico de sexta-feira foi uma vergonha, porque já toda a gente o disse. Vale a pena, sim, tentar dissecar a vergonha.
Em primeiro lugar, devo reconhecer que não foi um jogo fácil para o árbitro, mas cabe-me desmontar a ideia, logo avançada, de que os culpados estariam todos no mesmo saco. Não estavam.
Desde o primeiro minuto que os jogadores do Porto armaram uma pressão tão alta sobre a defesa do Sporting como sobre João Pinheiro, aquilo era tipicamente o reflexo de uma mentalidade em que se está connosco ou contra nós, e fizeram-no da forma agressiva com que se atiraram à partida, mas o juiz de Braga só via motivo de admoestação quando alguém do Sporting cometia uma falta, ou mesmo quando não o fazia, como no caso do amarelo invertido - soa a exercício de ginástica e não deixa de o ser - a Coates.
Decorridos 31 minutos da primeira parte, Paulinho desmarcou-se e ficaria isolado não fosse um puxão, leve, admito, de Mbemba. Nada. O jogo prosseguiu sem marcação de falta, expulsão, nada. Num lance em tudo idêntico, Coates impede que Evanilson dispare sozinho para a área do Sporting e João Pinheiro manda-o de imediato tomar banho.
Palhinha corta a bola a meio campo, só a bola, e leva amarelo. Vários jogadores do Porto, na sua garra habitual, que por vezes parece raiva, arriscaram a sanção disciplinar, mas o cartão devia ter pesos diferentes consoante o destinatário.
O desafio, claro, ficou estragado a partir do início da segunda metade. Antes disso tínhamos visto um Sporting inteligente, não com o bulício e a gana do adversário, mas sabendo aproveitar as oportunidades de o ferir, nos intervalos dessa febre. Foi um Sporting adulto, rigoroso e frio, aquele que se apresentou no Dragão. E, se tudo tivesse corrido normalmente, creio mesmo que sairia de lá com uma vitória. Mas o pior, de facto, veio no fim.
Não chego a subscrever as palavras de Frederico Varandas, se calhar porque não sei tanto como ele, se calhar porque o seu olhar é enviesado, não faço ideia, mas ouvir Sérgio Conceição a admitir, na conferência de imprensa, que as cenas após o jogo foram vergonhosas e lamentáveis e, depois disso, juntar-se a Vítor Baía e Rui Cerqueira para fazerem uma espera ao presidente do Sporting parece-me duma hipocrisia ainda mais vergonhosa, que só credibiliza o que por este último foi dito.
A verdade é que tudo isto contamina as hostes de um clube mais do que um vírus, e daí não causar espanto que ontem tenha resultado da festa uma nova variante do belicismo portista, inspirada num prato típico da cidade. Terminado o jogo, pudemos provar umas belas tropas à moda do Porto. Para mim, foi indigesto. Mas o futebol português, se bem o conheço, vai querer repetir.

