DENTE DE LEÃO - Opinião de Marcos Cruz
Depois de uma primeira parte de grande supremacia, marcada a desfavor por falhas de concentração pouco admissíveis, à cabeça das quais o disparatado convite de Nuno Santos para o golo madrugador do Marítimo, o Sporting reentrou no jogo como se estivesse a fazer um frete. Foi de abrir a boca, de espanto e bocejo.
Aqueles primeiros trinta minutos da segunda parte são inqualificáveis. A equipa a precisar de carregar, de chegar à vantagem, e a bola a circular em câmara lenta de pé para pé, como se os jogadores pedissem a Deus a passagem do tempo.
De longe a longe havia então um desequilíbrio, uma brecha, mas o momento da decisão ainda era pior. O que fez Paulinho durante o jogo todo, pergunto eu, além de falhar golos e arrastar-se pela frente de ataque? E o que explica a duração em campo de Nuno Santos, depois de tanta incapacidade, quando no banco há um Edwards que tira coelhos da cartola a cada lance?
Não é embirração minha, basta olhar para lá: Nuno Santos cruza bem, é rápido, mas como não sabe levar adversários na finta, só em corrida e quando o rei faz anos, acaba quase sempre por passar a bola ao colega que aparece atrás. Mas o que não houve ontem, na Madeira, foi pica, ganas de ganhar o jogo, vertigem, vontade de jogar futebol. Tudo unplugged. E depois, claro, é tarde para acordar.
Coates ganha milhentas bolas na área adversária mas não tem a precisão de um matador, e cruzar, cruzar, cruzar, mesmo com Slimani, Paulinho e Inácio, todos a pedir para a estrelinha do treinador lhes pôr uma bola a jeito, é mesmo já um recurso de desespero, castigo merecido por parte de quem tão pouco fez antes.
Parece ser necessário dizer a estes jogadores que nem todos os dias é Natal, que um jogo tem 90 minutos e há que lutar por ganhá-lo do início ao fim. Claro que o Sporting foi melhor do que o Marítimo, mau era se não fosse. Mas os remates aos ferros e os falhanços em cima da linha de golo são contingências que tendem a acontecer mais quando a ânsia já não permite a lucidez nos processos.
Enfim, eu já não punha grande crédito na possibilidade de renovarmos o título, agora ainda menos. Para mim está na mala do FC Porto, e que lhes saiba bem. Dou de barato algumas das dores de crescimento, mas aquilo que se passou ontem foi outra coisa. Outra coisa que não se admite. Culpados os jogadores e culpado o treinador, teimoso como não o havia sabido até aqui. Espero que ainda possamos reverter o rumo esta época e conquistar a Taça de Portugal, mas assim não vejo jeitos.

