DESCALÇO NA CATEDRAL - A opinião de Jacinto Lucas Pires, aos domingos n'O JOGO.
A Super Liga levou um banho dos adeptos da bola. A ideia de uma prova fechada de clubes ricos era um ataque aos princípios do futebol, entendido como jogo - bem disse Pep Guardiola, "se não se pode perder, não é desporto" - mas também como território de memória e de pertença, e sonho de miúdos e graúdos.
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Banqueteio-me com tremoços e cerveja, festejando esta vitória da "república" do futebol, assente na "soberania" do adepto, contra a intentona oligárquica de doze chefões de clubes ricos. Mas não podemos baixar a guarda. A violência do ataque é um sinal. Há razões para festejar, sim - mas há razões acrescidas para não ficarmos confortáveis com o andar da carruagem. Para conservarmos o futebol que amamos, temos de o mudar depressa.
Este golpe teve muito de patético (uma "irrevogabilidade" que se resolveu em dois ou três dias) e é fácil, por isso, não lhe darmos a importância devida
Este golpe teve muito de patético (uma "irrevogabilidade" que se resolveu em dois ou três dias) e é fácil, por isso, não lhe darmos a importância devida. Mas é essencial que não o esqueçamos já. É que ele constitui um grave sintoma da atual doença do futebol. O vírus da ganância do capitalismo financeiro global infetou o nosso desporto amado e, se não agimos de forma rápida e concertada, corremos o risco de, daqui a pouco, estarmos a ter a mesma conversa num tom ainda mais sério. Basta abrir as páginas dos jornais: clubes que são propriedade de milionários (ou, nos países onde a lei não o permite, dirigentes que se julgam donos de clubes...), o lucro como interesse primeiro desses clubes-empresa (quando eles são clubes desportivos!), uma bolha de despesas "galáticas" e alavancagens a chutar dívidas para a frente que terá de rebentar mais cedo ou mais tarde, um sistema de agentes e fundos de investimento que retira do centro das decisões os adeptos, uma lógica especulativa que não tem suporte na "economia real" dos relvados... O modelo da NBA não é transponível para o futebol europeu, e ainda bem. Mas há coisas boas que podemos importar.
Nomeadamente, a definição de limites de salários por equipa, a distribuição equitativa pelos clubes das receitas televisivas ou a criação de um mecanismo de equilíbrio no acesso aos jovens talentos. O sistema de "draft" da NBA não é imaginável cá, onde os jogadores são formados em clubes e não em universidades. Mas deveria haver maior defesa dos direitos dos clubes formadores, e poderia haver um modelo de preferências nas transferências de acordo com a classificação (para garantir maior equilíbrio desportivo) ou a obrigação de cada plantel ter um número mínimo de formados no clube. O essencial é que temos de devolver o futebol aos adeptos, às comunidades, ao relvado, se não queremos que ele morra, transformado num vídeojogo sem alma.
E, amanhã, o Benfica ficará mais perto da Champions?
