RUGIDOS DO LEÃO - As claques não foram criadas para servirem de arma de arremesso, condicionar assembleias gerais ou servir de guardas pretorianas de Direções do clube.
Na semana passada, escrevi de forma muito resumida que a abertura de mais um foco de conflito no clube seria potencialmente desagregador e que qualquer forma de violência teria de ser combatida e não podia ser tolerada. Gostava de voltar a este ponto em maior detalhe.
Desde logo, manifestar de forma clara o meu apoio à decisão da Direção do Sporting nesta matéria, pois que as claques ultrapassaram todos os limites aceitáveis na sua contestação à Direção do clube. Todos têm o direito à crítica, contudo, é inaceitável que a crítica resvale para o insulto gratuito e para a violência ou agressividade. Isto é tão válido para as claques como para qualquer adepto e sócio do clube. E esta posição parece-me que merece acolhimento junto de uma larga maioria dos sócios do clube, como se viu, aliás, no último jogo em Alvalade. Não se trata de apoiar Frederico Varandas, mas sim de condenar esta forma de estar.
As claques não foram criadas para servirem de arma de arremesso, condicionar assembleias gerais ou servir de guardas pretorianas de Direções do clube. As claques não são, nem podem transformar-se num contrapoder dentro do clube, condicionando o seu normal funcionamento. Isto tem de ficar bem claro para todos. Aliás, as claques devem perceber que ou aproveitam esta janela temporal para se refundarem ou acabarão por perder o seu espaço no futebol.
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A opacidade das suas lideranças, algumas ligações ao crime, a violência são incompatíveis com os valores emergentes de uma sociedade moderna. Em última instância, as claques perderão os seus fatores de atratividade se não se adaptarem. A Juventude Leonina é a maior claque portuguesa porque vive à custa do prestígio que acumulou e da magia que criou em muitas tardes e noites do futebol leonino. Era um espetáculo dentro do próprio espetáculo que deve ser a festa do futebol. Essa magia perdeu-se.
As claques do Sporting devem aproveitar este momento para se refundarem. A abertura ao diálogo manifestada nesta semana tem de ser aproveitada para um novo quadro de relacionamento entre o clube e os seus GOA assente em princípios muito claros, a saber: (1) todos os membros das claques do clube têm de ser sócios do clube e ter suas cotizações em ordem para aceder ao Estádio José Alvalade; (2) sujeição absoluta de todos os membros dos GOA ao regulamento disciplinar do clube; (3) responsabilidade financeira solidária dos GOA e dos seus membros da direção por atos ilícitos passíveis de gerar responsabilidade contraordenacional do clube; (4) obrigação de aprovar contas anualmente e divulgar as mesmas; (5) impedimento de entrada nas instalações do clube (temporária ou definitiva) de elementos violentos ou condenados por órgãos disciplinares do clube ou com condenações de natureza penal com moldura superior a três anos de prisão.
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Mediante o cumprimento de todos estes pressupostos, entendo que o clube deve apoiar financeiramente as suas claques e GOA, seja por via de preços descontados de bilhetes e lugares anuais, seja por via de comparticipações financeiras nas deslocações a recintos desportivos fora de Lisboa. E deverá ser criado um espaço estatutário de participação dos GOA na vida do clube, bem como a criação de um cargo de vice-presidente responsável pela gestão da relação com as claques e demais adeptos. Esta é a altura de criar um novo paradigma e dar o exemplo ao País. Uma palavra para o poder político que nesta, como em tantas outras matérias se limita a assobiar para o ar. Andamos a discutir a idade legal para aceder a um espetáculo tauromáquico e esquecemos as recorrentes questões nos nossos recintos desportivos. Uma vergonha a inação dos sucessivos governos que também ajudaram a criar este monstro que habituou-se a viver na marginalidade e na impunidade.
Nota final. Sérgio Conceição é um treinador com méritos inquestionáveis, contudo o treinador portista insiste em dar espetáculos de má educação e mau perder. Sérgio é uma espécie de guarda Abel dos tempos modernos, mas o mundo mudou. Pode encaixar bem numa SAD que ainda acreditará que o confronto e o regionalismo são o caminho mais rápido para o sucesso, contudo constitui um óbice intransponível para a afirmação internacional do treinador portista. Uma pena.
