Isto de ser líder e puxar galões apenas nos momentos de vitória tem muito que se lhe diga ou diz tudo sobre esta liderança.
Adivinham-se meses movimentados nas SAD dos três grandes, todas elas a necessitar de capital, ainda que por motivos distintos. O FC Porto está numa situação de fragilidade, a necessitar urgentemente de vender ativos, tendo já antecipado mais de metade do contrato com a NOS. O modelo de negócio portista é de elevado risco, pois o nível de investimento no plantel exige presenças contínuas na Champions e vendas avultadas de ativos. Para manter o passo e acompanhar o Benfica, o FC Porto terá de arranjar novas formas de financiamento. O Benfica, por seu turno, acaba de anunciar uma OPA, antecipando-se a breve trecho a venda dessa tranche de capital para permitir a entrada de um parceiro estratégico. Só assim esta operação faz sentido pois o clube controla a SAD e não tem risco anunciado de perda da maioria. Veremos em breve movimentações na Luz, sendo que o objetivo não deixará de ser ganhar músculo e dimensão internacional para atacar a Superliga Europeia.
Em Alvalade, o cenário é bem mais complicado. O Sporting precisa de um parceiro estratégico e de capital, mas antes que isso suceda muito há a fazer em Alvalade. Desde logo, uma profunda remodelação do modelo de gestão do clube, dotando o mesmo de uma estrutura profissional de excelência. Tanto ou mais importante que os reforços para a equipa de futebol, o clube precisa de ir ao mercado recrutar profissionais experientes e de competência inatacável em todas as áreas de gestão. Uma equipa de excelência, transversal à SAD e ao clube, desde a área financeira, ao departamento comercial, pricing, marketing, comunicação, digital, etc. O Sporting está a anos de distância dos seus rivais em termos de estrutura, a qual nalguns casos é de um amadorismo constrangedor. Reformar o clube por dentro, apostar na formação e um fortíssimo investimento em sistemas e tecnologia, permitindo um trabalho adequado ao nível da relação com os sócios, adeptos e núcleos. Não há sucesso sem competência, profissionalismo, rigor, uma estratégia e gente preparada para o executar. Só depois de feito este trabalho o Sporting estará em condições - e valorizado - para admitir abrir uma parte minoritária do capital da SAD, estabelecendo uma parceria com um investidor estratégico que traga sinergias comerciais e capital para reinvestir na equipa de futebol. Que fique claro que em circunstância alguma admito a perda da maioria da SAD e o controlo do ativo mais precioso do clube. Não há Sporting Clube de Portugal sem a sua SAD. São duas realidades indivisíveis. Fazer este movimento neste momento com tantas e evidentes fragilidades seria um erro monumental pois que este Sporting é um sorvedouro de dinheiro e uma trituradora de capital humano. Seria como despejar dinheiro num buraco sem fundo. Dito isto o Sporting precisa urgentemente de um plano e de uma estratégia de médio prazo de forma a não ficar irremediavelmente atrasado face aos seus rivais. E precisa de uma liderança clara e de gente competente para a executar, o que pressupõe profissionais de excelência e gente que conheça bem o clube, sua cultura, valores e sua massa adepta. Desengane-se quem acha que qualquer movimento transformador do clube poderá ser feito sem um amplo apoio dos adeptos anónimos que dia após dia se mobilizam e levam este clube para a frente. Gente que não anda nos corredores de Alvalade, que não dá entrevistas, mas de uma generosidade e amor incondicionais pelo clube.
No momento em que escrevo estas linhas o Sporting acaba de se qualificar para o play-off de acesso aos oitavos de final da CL de andebol. É notável a evolução do andebol português e a qualidade de FC Porto e Sporting. No caso leonino - e apesar do apreço que nos merece Hugo Canela - já se vê o dedo de Thierry Anti, um treinador de nível mundial e a prova que dispor de técnicos desta categoria faz toda a diferença. No futebol, tivemos uma reminiscência das grandes noites europeias, com uma goleada ao PSV. Foi uma boa vitória contra uma equipa que joga aberto e sem grandes preocupações defensivas, pelo que deve ser vista com cuidado. De todo o modo, tem-se visto a evolução da equipa e espera-se confirmação nos próximos jogos.
Nota final. A semana passada o futsal teve um desempenho dececionante sendo eliminado da final four da CL de futsal. Da mesma forma que não hesitou em puxar os louros aquando da vitória do judo, Frederico Varandas deveria ter dado a cara neste momento. Isto de ser líder e puxar galões apenas nos momentos de vitória tem muito que se lhe diga ou diz tudo sobre esta liderança.
