DENTE DE LEÃO - Opinião de Marcos Cruz
Quem quer ser jornalista desportivo, que estude economia". Numa frase curta, Jorge Valdano define uma era. Olhe-se para o futebol: algo está mal quando os adeptos dos clubes vibram com a perda dos seus melhores jogadores. Esta semana, foram vários os sportinguistas que, sabendo que eu escrevo n"O Jogo, me vieram comunicar o seu júbilo pela venda de Nuno Mendes.
Tratara-se, segundo eles, de um grande negócio. Face às minhas reservas, olhavam-me como se eu fosse tolo. Se calhar sou. Ou se calhar gosto mesmo de futebol. Antigamente - parece discurso de velho, eu sei - também me afluía o brilho aos olhos quando chegava alguém de fora, mas nunca me foi alegre a saída de um craque feito em casa.
Cristiano Ronaldo, Figo, Futre, Nani, eu queria lá saber por quanto dinheiro eles iam. Uma coisa é ter consciência da necessidade, outra é transformar a necessidade em consciência. E se olharmos para os programas de debate desportivo vemo-nos perante a imagem desta inversão. Os comentadores parecem agentes, sempre a lembrar que os clubes precisam de vender, conjeturando arbitrariamente sobre o que serão, em cada caso, os valores adequados.
Cientes de que hoje a obra tem menos peso do que os discursos que se produzem à volta dela, contribuem para a asfixia do encantamento pelo racionalismo ímpio do mercado, como se o verde do relvado onde tudo acontece devesse ser absorvido pela cor mutante do dinheiro.
Nuno Mendes era um miúdo que me fazia sonhar, a mim que ainda projeto em cada jovem promessa aquele Marcos raquítico mas de fibra que ia para a cama imaginar as jogadas e os golos do dia seguinte. Não quero muito falar de números: 40 milhões, 70, 120, é tudo abstrato. No mundo cada vez mais desigual em que vivemos, são valores obscenos. Mas eu não vivo na lua e a minha perspetiva está longe de ser apenas romântica.
Podemos sempre esquecer o mundo por uns momentos e fazer zoom para a realidade do futebol. FC Porto e Sporting tinham, ao que foi sendo dito e escrito, urgência de vender. O que fez o FC Porto? Manteve os seus ases, mesmo arriscando perder dois deles a custo zero na próxima época. Já o Sporting, que foi campeão e vai poder mostrar as suas pérolas na Champions, decidiu vender a mais promissora delas.
É certo que por morrer uma andorinha não acaba a Primavera e em Alvalade cresce ainda uma juba exuberante que anima o leão para o rugido do futuro, mas eu não deixo de achar que a levaram demasiado cedo ao barbeiro.
Terá sido o de Sevilha, a avaliar pela vinda de Sarabia, que fez escala num clube arrasa-futebol de Paris. Felizmente há Vinagre para pôr nesta ferida, só que de dois alas esquerdos capazes de assegurar uma época ao melhor nível em várias frentes o plantel passou a ter apenas um, que me desculpe o competente Matheus Reis. Por isso, celebrar o quê? O futuro nos dirá se foi mesmo um bom negócio.
