Só quem não percebe o que é a mística pode propor vender o nome do estádio
DESCALÇO NA CATEDRAL - A opinião de Jacinto Lucas Pires, aos domingos n'O JOGO.
Parabéns à equipa feminina de futebol do Benfica - grande vitória na final da Taça da Liga! Aquele primeiro golo em corrida foi uma alegria a fazer lembrar o futuro.
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Esperemos que o conseguimento inspire a equipa masculina na espécie de final de hoje, com o Braga. Sabemos que, do outro lado, está uma equipa ótima, com um grande treinador, e que é preciso acertar na tática, no modelo e nas afinações pontuais - mas o essencial está na cabeça, na cabeça, na cabeça. Não, não estou a recomendar nenhuma versão de chuveirinho para amolecer a Pedreira. Falo de entrar com o espírito certo.
É muito chato jogar assim, correndo atrás do prejuízo, claro que é (cá se fazem, cá se pagam...), mas temos melhorado qualquer coisita. Seja como for, hoje é que vai ser (às vezes, sai-nos cada expressão, não é verdade?): este será o nosso primeiro embate de alto nível, desde o desaire com o Arsenal. A ver se, contra os "arsenalistas" do Minho, nos desforramos de tanto flop em jogos de alta voltagem.
Só quem não percebeu o que é a mística, é que pode propor uma coisa destas. Contra esta mesquinhez do "naming", aqui vai por escrito o meu manguito
Temos vindo a melhorar aos poucos, sim. Ainda estamos muito longe de uma qualquer "ideia de futebol", mas a confiança e a velocidade subiram uns níveis. Com o Rio Ave, o B-Sad e o Boavista, o coração "marca de margarina de baixo colesterol" do adepto já pôde sentir, aqui e ali, a emoção "marca de automóveis de gama alta" que um futebol veloz e com a vivacidade "marca de creme anti-rugas à venda em todas as farmácias" sempre traz. Além, claro, dos tão necessários golos patrocinados pela marca do "banco escolhido pelos portugueses para créditos macro e micro" que farão a equipa da "marca desportiva internacional" subir na pontuação trazida ao país, em tempo real, pela "marca de computadores de ultimíssima geração".
Perdoem-me, caros leitores, estas frases atulhadas de aspas; estava só a tentar imaginar um mundo pós-naming... Não sei se repararam nisso. Foi anunciado pelo Benfica com grandes parangonas: arranjaram uma empresa norte-americana para arranjar uma marca que dê nome ao estádio. Sim, não estou a brincar, é mesmo isto. Alguns dos especialistas consultados vêm dizer que talvez não seja muito avisado fazer um negócio por vinte e cinco anos nesta altura excecional de pandemia, crise, vacas magras. Mas parece-me que falta alguém dizer o óbvio: há coisas que não se vendem, ponto final. Ponto de exclamação, caramba! Já imaginaram o que seria renomear o Mosteiro dos Jerónimos com uma marca qualquer? Ou a Torre dos Clérigos? Ou o Castelo de Guimarães? Não, não estou a exagerar: estamos a falar da Catedral! Só quem não percebeu o que é a mística, é que pode propor uma coisa destas. Contra esta mesquinhez do "naming", aqui vai por escrito o meu manguito.
