DESCALÇO NA CATEDRAL - Um artigo de opinião de Jacinto Lucas Pires.
E agora Jorge Jesus vem dizer que a culpa é da covid. Ao mesmo tempo, atira que isso "não é desculpa"
. Claro que essa é a frase fatal de todos os que tentam arranjar desculpas, mas vamos fazer de conta. Só que, se o relambório melodramático de vitimização que o técnico do Benfica ensaiou depois dos jogos com o Famalicão e com o Estoril não é para arranjar desculpas, é para quê, exatamente?
Depois do que se passou, seria normal que o técnico ganhasse distância em relação ao seu umbigo, mudasse de discurso e, sim, aprendesse a pedir desculpa como deve ser. Em vez disso, o que temos visto, infelizmente, é mais do mesmo - só que em modo destravado, desesperado, de fuga para a frente... Caramba, já chega de vaidadezinha e de tentar sacudir a água do capote. Quantas desculpas já ouvimos? Há pouco tempo para treinar; é preciso esperar que as contratações se adaptem ao futebol europeu; alguns atletas não interpretam bem as ideias do treinador; a imaturidade deste ou daquele estraga tudo nos momentos de decisão; ninguém marca penáltis a favor do Benfica; as equipas pequenas fazem demasiado antijogo; os jornalistas não percebem de futebol; os críticos complicam as coisas com "especulações"... E agora é a covid.
Não sei se viram a história da freira francesa de cento e dezasseis anos que sobreviveu à covid, queridos leitores. Quando questionada sobre isso, a senhora nascida em 1904 - ano mítico em que, na Farmácia Franco, nascia o maior clube do mundo - disse apenas, detrás de um suavíssimo sorriso, que, se o bom Deus não a levara, seria talvez por ela não ser ainda suficientemente livre e séria. É uma resposta maravilhosa que nos tem de pôr todos a pensar. Como é que podemos ser, ao mesmo tempo, livres e sérios?
Saltando da filosofia moral para o paleio da bola (mas não foi Jorge Jesus que, em tempos, trouxe Pascal para as páginas desportivas?), arrisco dizer que é isso que falta a este Benfica. Não é sério dizer que a culpa do desastre desta época é da covid, porque o mau futebol e os maus resultados da equipa são muito anteriores ao surto no plantel benfiquista. A "doença de confiança" não vem de nenhum vírus malvado, mas da chefia autocentrada, arrogante de Jorge Jesus e do modelo de negócio populista de Luís Filipe Vieira. Além do mais, o fracasso desta época põe a nu essa ligação: a Direção amarrou o Benfica a este treinador e agora assiste ao desastre de braços cruzados... Lembro-me da lição da freira francesa - nada disto é livre ou sério.
Quanto ao futebol propriamente dito, resta-nos dar tudo em cada jogo. Abrirmos o campo pelas alas, mexermo-nos mais sem bola entre as linhas adversárias e rezarmos para que Taarabt e Rafa não se magoem.
