DENTE DE LEÃO - Opinião de Marcos Cruz
Com o título já acomodado na mala do FC Porto e o acesso direto à Liga dos Campeões garantido pelo Sporting, olho para o clássico de hoje como para o chocolate ao fundo do Cornetto - lembra-me que o prazer ainda não acabou.
Apesar de o nosso campeonato não ser propriamente um paraíso do futebol, tem os seus momentos, as suas pepitas de chocolate, lá está, a quebrar a monotonia da bolacha, e por norma são os jogos entre grandes, embora quando as contas se encontram apertadas as equipas tendam a encaixar umas nas outras, prejudicando o espetáculo.
Sim, o espetáculo. Esta palavra tem andado tão arredada dos estádios portugueses que até parece alienígena. E hoje é uma oportunidade especial para a resgatar, pois ela faz parte não apenas do encanto da modalidade como do negócio que cega tantos dos seus agentes.
Vejam aleatoriamente um jogo da Liga, um Moreirense-Arouca, um Belenenses-Portimonense, sei lá, uma coisa desse género, e nem precisam de o alternar com uma partida qualquer da Premier League para terem uma ideia da qualidade média do nosso futebol. É um bocejo. E claro que não vende, por mais que se esforcem os comentadores televisivos em dourar a pílula.
Eu, não tendo clube em Inglaterra, veria lá um jogo deles se não fosse bem jogado... Estou mesmo a imaginar o Boris Johnson a dizer à mulher: "Carrie, hoje não marques nada que vamos ver o Tondela-Estoril".
Aqui, a tática e o resultado sacrificam a magia e tiram o oxigénio à surpresa. Parece que todos defendem a camisola dos dados, esquecendo-se de que o dataísmo não tem profundidade, é um corpo vazio, uma pele desanimada. A estatística tornou-se marketing. Como em muitos setores de atividade a perder sabor ou sentido, assumiu um protagonismo nefasto. O melhor marketing é o produto ser bom, não há muita volta a dar. E para isso, no futebol, o brilho tem de voltar aos olhos de quem entra em campo. Antes de se defender balizas, é preciso defender o talento, a criatividade, a dimensão estética do jogo.
Hoje, sem nada de determinante para decidir, seria muito bom que os futebolistas de Sporting e Benfica, não esquecendo as suas responsabilidades, fizessem do relvado a rua do bairro.

