A tentação financeira é grande, mas a grandeza do Benfica obriga a mais do que a estratégia de exportação de jogadores
No futebol, nunca é cedo ou tarde para palpites, análises ou extrapolações. Muito menos à primeira ronda (de seis) da fase de grupos da Liga dos Campeões. Mas a impressão que fica, da estreia do Benfica na edição 2019/20 da Champions, é que ou Bruno Lage ousou (e é vezeiro nisso) ou menosprezou o RB Leipzig na abordagem ao jogo disputado na Luz.
A ânsia de transformar Jota no próximo Félix, apesar de legítima, pode tornar tudo mais complicado
As alterações introduzidas pelo técnico (que nem pôde estar no banco, a cumprir castigo da UEFA) no onze inicial são discutíveis. Não é de crer que Lage, apesar da sua curta experiência em palco internacionais com a dimensão da Liga dos Campeões, tenha sido negligente. Claro que não.
A aposta na titularidade de Tomás Tavares - estreou-se em jogos do plantel principal - e de Jota têm justificações diferentes: no primeiro caso, pela ausência de André Almeida, com alguns problemas físicos; no segundo por mera opção técnica, apostando numa mobilidade ofensiva diferente da que oferece Seferovic, a que não será alheia, também, alguma gestão de esforço neste ciclo infernal, com o Benfica em várias competições.
Mas ter o suíço no banco, onde também se sentou Rafa, também replica a ideia de que o Benfica, nas últimas duas épocas, tem olhado em demasia para a competição com segundas intenções: a de que se trata de uma excelente montra para a sua estratégia de exportação, coroada com a venda do passe de João Félix (por 126 milhões de euros, ao Atlético de Madrid) como o negócio do ano.
Por gestão de esforço, por indisponibilidades físicas ou por opção técnica, o desempenho coletivo frente ao atual primeiro classificado alemão esteve muito aquém da declaração da semana de Domingos Soares Oliveira, CEO dos encarnados, quando afirmou que Portugal é muito pequeno para o Benfica.
Não que os promissores Tomás Tavares e Jota tenham tido exibições pálidas. Bem pelo contrário, sobretudo no primeiro caso. Quanto a Jota, compreendem-se os ímpetos comerciais, mas as mesmas fórmulas podem não funcionar em jogadores diferentes. E a ânsia de transformar Jota no próximo Félix, apesar de legítima, pode tornar tudo mais complicado. Não está em causa o valor técnico do jogador, mas sim a pressão que lhe possa ser criada.
Dar prioridade à tentação de fazer da Liga dos Campeões uma montra para exportação é um ato de boa gestão para a saúde financeira da SAD. Mas...
Por outro lado, guardar a artilharia pesada (Seferovic e Rafa) para apostar em snipers num confronto aberto e duríssimo era excessivamente arriscado. Apesar de ter surgido no pote 4, teoricamente o das equipas com menos cotação, já toda a gente sabia que estes alemães dispõem de recursos ao nível da Champions, nomeadamente o matador alemão Timo Werner, o possante dinamarquês Poulsen ou o muito dinâmico sueco Forsberg.
O Leipzig é primeiro na Alemanha, à quarta jornada. Também se pode argumentar que o Famalicão lidera em Portugal à quinta... Bem, por muito impossível que acabem ambos como líderes na última ronda de cada campeonato (mais a equipa portuguesa do que a alemã, na minha opinião), desvalorizar um adversário deste calibre para gestão de esforço quando essa mesma gestão podia ser feita face a um Gil Vicente na Luz (três dias antes) é dar mais importância ao campeonato português do que à Champions. Nada contra, nada de errado nisto. Apenas confirma que o campeonato português é, afinal, a medida competitiva do Benfica.
Dar prioridade à tentação de fazer da Liga dos Campeões uma montra para exportação é um ato de boa gestão para a saúde financeira da SAD. Mas arrisca-se a mostrar um Benfica muito pequeno para a Europa. É que não foi há muito que os encarnados terminaram com zero pontos na Champions: foi há duas épocas. E isso é uma pedra nos sapatos dos adeptos, aliviada pela chegada aos quartos da Liga Europa na época passada.
Esta derrota terá efeitos. Acredito que, sobretudo, funcione como alerta para eventual redefinição de prioridades.
