PONTAPÉ NA CANELA - Fez ontem 25 anos que o Portugal de Queiroz perdeu a qualificação para o Mundial"1994
San Siro, 17 de novembro de 1993. Último jogo da fase de apuramento para o Mundial"1994. Itália-Portugal, 1-0, golo de Dino Baggio, em fora de jogo, ao minuto 83. Os transalpinos atingem os 16 pontos, a Suíça fica com 15 e Portugal com 14. Como ao tempo a vitória valia dois pontos, o empate teria deixado as três seleções empatadas a 15 e a portuguesa ficaria de fora na mesma, por um golo.
San Siro, 17 de novembro de 2018. Penúltimo jogo da qualificação para a final a quatro da Liga das Nações. Itália-Portugal, 0-0, equipa das Quinas apura-se e ainda tem 90 minutos para festejar e desfrutar frente à Polónia. Dispensa-se a última dose de pressão.
Passaram exatamente 25 anos entre o jogo que terminou com Carlos Queiroz esbaforido a dizer que era "preciso varrer a porcaria que há na Federação" e o de ontem, com Fernando Santos a explicar calmamente as cambiantes táticas que conduziram ao inusitado sofrimento da primeira parte e quais foram as retificações operadas para equilibrar a pauta no segundo tempo. O que mudou, afinal, nesse quarto de século que mediou as duas partidas? "Grosso modo", foi varrida a porcaria! Carlos Queiroz vai carregar para sempre aquela expressão de mau perder. É terrível ter de ganhar e ser batido com um golo em fora de jogo. Não mudava nada na qualificação se tivesse sido anulado, mas ajudou a elevar o nível de fel nas palavras do selecionador. Soou mal, muito mal mesmo, e valeu-lhe até uma guia de marcha para outras bandas. Saiu a mal pouco mais de dois anos depois de ter sido bicampeão mundial de sub-20 e de ter herdado a meio do caminho uma Seleção A com a qual sonhava mas que ainda não queria.
Queiroz demorou a justificar-se, mas depois explicou que não tinha falado de pessoas mas sim de procedimentos. Antes desse Itália-Portugal, os jogadores discutiram a hipótese de fazer uma greve por não serem parte interessada num contrato de patrocínio da FPF. O ambiente era caótico, as prioridades estavam erradas, faltava profissionalismo. Queiroz foi a San Siro tentar salvar um apuramento, jogou deliberadamente para ganhar (acabou com um ataque composto por Domingos Paciência, Rui Águas, João Vieira Pinto, Futre e Rui Barros! Uma loucura ainda maior recordando que era Queiroz o treinador...), mas não deu.
Vinte e cinco anos depois, Fernando Santos vive no céu. Tem um capital de confiança conquistado e uma organização que o põe a salvo de imponderáveis. Ontem precisava de empatar e até pode ter pensado em mais do que isso, mas cedo teve de se ajustar e jogar para o pontinho. Correu bem e não se pode escamotear o mérito de defender bem.
Será esta geração melhor do que a de há 25 anos? No tocante a talento, não. É agora melhor o trabalho dos clubes? É possível. O hábito de ganhar está enraizado em mais gente, a mentalidade é forte e como continuam a não saber grande coisa de história, não se impressionam e não têm medo de jogar em lado nenhum. E, claro!, é mais fácil quando não se anda a tropeçar em porcaria.
