PLANETA DO FUTEBOL - Luís Freitas Lobo analisa o momento de Rui Vitória ao leme do Benfica e lança um olhar sobre Vinícius, ponta de lança do Rio Ave.
1 - Um treinador tem sempre de viver com uma "sociedade de sombras" em seu redor ou, para ser mais concreto, atrás de si. Ele não as vê. Mas pressente-as. A bola bate no poste vezes seguidas demais e elas crescem de tamanho e, aos poucos, vão ganhando rosto. Não, nunca são sombras de adeptos com lenços brancos. São sombras que nascem mais perto. Rui Vitória nunca teve a vida fácil no Benfica. Dentro e fora. Nunca foi um "treinador com imprensa". Tirando, claro, aqueles dias após ganhar títulos e isso era uma fita adesiva automática na cassete das críticas. Logo, depois, elas voltavam como se nada fosse.
2 - Venceu dois campeonatos contra a maior das sombras e o mais diabolizado e temido fantasma vivo, Jesus no banco do Sporting mais forte e agressivo das últimas décadas, mas nem assim conseguiu acabar o seu "caminho das pedras" na Luz.
É um caminho que vai ter de percorrer até ao ultimo dia. O perturbante é ver como agora essas sombras ganham forma desde dentro quando se diz que já existem três treinadores prontos para entrar quando ele sair. Um deles, o maior dos fantasmas, que agora (numa cirúrgica gestão de comunicação global-editorial) fala desde longe dessa possibilidade. Todos a sussurram. Alguns já a gritam. Outros, seguem o vento.
Como se alimenta um fantasma e como se iluminam sombras? Rui Vitória, dois títulos e a vida atual no "castelo assombrado"
3 - No meio de tudo isto está (como sempre esteve) uma equipa a jogar. E, como antes da tática e da técnica, uma equipa é um estado de ânimo, tenho dito várias vezes que o que mais espanta no atual Benfica nem são as criticáveis opções táticas ou substituições que não ajudam (disso nenhum treinador -ou fantasma- se livra). É ver os jogadores desfeitos emocionalmente, incapazes de reagir à adversidade com cabeça, ficando dominados pela ansiedade e "caras de susto" quando as coisas começam a correm mal.
Isto já é mais do que futebol na relva. É o futebol que se torna metralhadora na cabeça de todos.
4 - Rui Vitória vive demasiado preso à ideia do onze-base e das alterações feitas mais de acordo com o plano de jogo prévio traçado do que como reação ao que o jogo real pede (e tantas vezes foge ao plano prévio pensado). Já provou, porém, que sabe viver em castelos de fantasmas e caminhar por entre pedras e sombras. Torna-se insustentável é quando, em vez de semanalmente se alimentar essa sua capacidade, dar-se, ao invés, cada vez mais corpo a esses outros seres "invisíveis".
Há tempos para tomar decisões. O fim e início de cada época. Há tempos para defender essas decisões. O decorrer da época. Se o Benfica inverter esta ordem, inverte toda a lógica de ação (menos para as sombras e fantasmas, claro).
A reação denuncia
São os jogos grandes que medem os jogadores. Por isso, muitas vezes, alguns ficam presos nessas suspeitas enquanto só os vemos a brilhar nos jogos com menor peso. Um jogador que destaquei aqui no inicio da época passada quando ainda sem marcar golos era o n.º9 do último classificado da II Liga, é um desses casos que quero ver nesse salto. Vinícius, o ponta-de-lança do Rio Ave, que veio há uns anos anónimo desde o Brasil. Cada bola que ataca na zona militarizada entre os centrais tem instinto e gesto destemido. Tecnicamente sabe "defender-se" e remata bem. Vêm agora os jogos grandes. Gosto de ver como reage quando... falha golos. Não lhe é indiferente.
Este é, aliás, um traço que olho em todos os jogadores como forma de lhes avaliar o carácter competitivo que levam dentro. Sejam, claro, defesas, médios ou avançados. Como reagem imediatamente depois de um erro, de um passe falhado, de qualquer coisa que lhes corre mal no jogo. Eu sei que cada um tem "a sua forma de ser" mas, nestes casos, em nenhuma delas cabe para mim o direito à... indiferença.
