Readmissão de Bruno de Carvalho deve ser apreciada: foi ilibado e o contexto mudou
RUGIDO DE LEÃO - A crónica de Samuel Almeida, aos domingos
1 - O processo Cashball, em todas as suas vertentes, mostra a decadência de valores em que mergulharam os bastidores do futebol luso.
Os desfechos dos casos judiciais de Alcochete e Cashball ilibaram Bruno de Carvalho de qualquer responsabilidade criminal
Temos um agente alegadamente corruptor, não temos mandantes e existem suspeitas de todo este caso ter sido forjado com a conivência de um meio de comunicação social e a participação de um agente pouco recomendável que anda a mando sabe-se lá de quem.
Isto de desporto tem pouco, é apenas um submundo que rodeia o futebol, com comissões pornográficas a agentes de jogadores, tráfico de influências, transferências pouco transparentes, SADs na mão de capital no mínimo de origens duvidosas.
É um submundo lamentável, que vive à custa dos clubes e de uma justiça pouco eficiente. Felizmente para todos os sportinguistas, o clube e seus anteriores dirigentes ficam ilibados de qualquer mácula. E essa é a única boa notícia.
2 - Os desfechos dos casos judiciais de Alcochete e Cashball ilibaram Bruno de Carvalho de qualquer responsabilidade criminal. É uma boa notícia para o próprio e para o Sporting Clube de Portugal.
E devemos fazer uma leitura destes factos à luz do que sucedeu em 2018. Vou ser claro sobre esta matéria. Como é público - e mantenho a mesma opinião -, defendi publicamente que Bruno de Carvalho e seus pares violaram de forma grave e reiterada os estatutos do clube. Votei favoravelmente a sua destituição, não participei na AG da sua expulsão como sócio, ainda que os ilícitos disciplinares fossem graves.
Nunca falei sobre os contornos do caso Alcochete, nem de eventuais responsabilidades dos órgãos sociais por entender que tal poderia prejudicar gravemente os interesses do clube. Chegados aqui, é de elementar justiça admitir que muitos sócios poderão ter tomado as suas decisões com base num processo de intenções contra o anterior presidente.
E sendo esse o caso e verificando-se todos os requisitos estatutários, sendo essa a vontade dos sócios do clube, a questão da readmissão de Bruno de Carvalho deve ser apreciada. Bem sei que o tema é polémico, mas os estatutos não podem constituir uma arma de arremesso e usados com dois pesos e duas medidas.
Já passaram mais de dois anos, Bruno de Carvalho foi ilibado e o contexto mudou. A reapreciação do tema seria boa para a pacificação do clube, dando a voz novamente aos sócios. Sem medos, mas não agora. Como tenho defendido insistentemente, este não é o tempo de AGs em Alvalade, mas sim tempo de darmos a esta equipa de futebol todas as condições para o seu crescimento. Deixemos estes temas para o período estival e o final da época desportiva, eis o meu apelo a todos os intervenientes.
3 - Luís Aguilar, comentador desportivo, apressou-se a retirar as suas conclusões sobre este desfecho, defendendo a imediata realização de uma AG no Sporting, sob pena de falta de democraticidade no clube de Alvalade. Engraçado, não vi Luís Aguilar manifestar o mesmo tipo de preocupações em torno das eleições no nosso rival, onde a televisão do clube não é colocada à disposição dos diversos concorrentes e onde o candidato que se encontra em funções recusa qualquer forma de debate.
É bom que a polémica em torno do IPDJ seja resolvida em definitivo
Ou pior, quando vários benfiquistas se queixam de os votos físicos nunca terem sido contados. É um problema dos nossos vizinhos, ficamos apenas a saber que não é uma preocupação para o Luís. Isto de tentar dar lições de democracia a um clube como o Sporting tem muito que se lhe diga, ou neste caso, mais valia estar calado.
4 - Estas eleições do nosso rival são um bom exemplo para a atual Direção do Sporting abandonar, em definitivo, o projeto de introdução do voto eletrónico em Alvalade. As acusações de falta de controlo do processo, falhas nos sistemas e sua integridade são mais do que suficientes para nos afastarmos deste modelo. O que devemos promover, sim, é a descentralização dos locais de voto, criando condições para os sócios votarem em segurança em alguns núcleos de norte a sul do país. O Sporting é de Portugal, não de Lisboa.
Nota final. É bom que a polémica em torno do IPDJ seja resolvida em definitivo, pois apenas contribui para a dúvida legítima sobre se todas as instituições públicas mantêm o distanciamento exigível face aos clubes, sejam eles quais forem.
