DENTE DE LEÃO - Um artigo de opinião de Marcos Cruz.
Arrastam-se os dias sem que vejamos, ao ritmo das nossas ilusões, as entradas de jogadores a acontecer.
É natural, faz parte do futebol este desejo de apetrechamento que os torcedores sentem a cada defeso, interessados que estão na melhoria das capacidades do plantel mandatado para realizar os seus sonhos.
E, como que em resistência fantasiosa às leis do mercado, também é comum vê-los a querer participar do processo, acompanhando jogos de outras equipas com o fito de descobrir novos talentos que depois, nas redes sociais ou em fóruns de adeptos, não se coíbem de sugerir ao clube.
Por esta altura, uma das formas mais apetecíveis de quebrar a modorra é imaginarmo-nos como olheiros voluntários, uma espécie de versão adulta do brincar aos médicos, e descobrir craques que acreditamos estarem ainda escondidos, chutando para canto uma realidade insofismável: hoje a floresta do futebol tem câmaras de vigilância em todo o lado, do Uruguai à Coreia do Sul. Mas eu não sou excepção. O sonho também comanda a minha vida. Mesmo que não se materialize, é bom acalentá-lo, torná-lo eterno enquanto dura, como o amor.
Ainda há uns tempos, precisamente quatro dias antes de a Rússia ter invadido a Ucrânia, um senhor que prezo muito, dono de um restaurante perto de minha casa, foi aos correios do Marquês registar uma carta para Putin. Os funcionários ficaram todos de boca aberta, nunca lhes tinha acontecido. Mas a carta do senhor Marinho chegou ao Kremlin, se Putin a leu ou não já é matéria, lá está, para os nossos sonhos.
Não podemos deixar de crer que participamos nas decisões do mundo, mesmo que esse mundo onde as decisões se tomam se afaste cada vez mais de nós. Tal é o espírito com que tenho entretido pontas soltas dos meus dias a ver futebol de outros campeonatos, ainda ou já activos. Tiro muitos apontamentos sobre jogadores, mas vou cingir-me a mencionar as duas últimas pérolas que descobri, talvez por isso, por terem sido as últimas e ainda me sentir encandeado. Chamam-se Ramiro Enrique e Matías González, são ambos do Banfield, da Argentina, e assentavam como uma luva no plantel do Sporting. O primeiro é um "9" de 21 anos, o segundo um "8" de 20, mas têm em comum a magia do país das pampas, sem prejuízo de serem já homens de compromisso, de luta, de sacrifício pela reconquista de cada bola. De uma assentada, garantíamos alternativa a Paulinho e a Matheus Nunes - ou, no caso de este último sair, um substituto. Se hoje creio que serão negócios possíveis, amanhã tenho quase a certeza de que já não estarão ao nosso alcance. Mas isto sou eu, mais um olheiro de sofá.

