DENTE DE LEÃO - Opinião de Marcos Cruz
Ao soar do apito final, o primeiro comentário que ouvi foi: "Que nojo de jogo". Veio do sr. Adelino, o mais condescendente dos meus companheiros de mesa, no café onde costumamos ver o Sporting. E eu subscrevo-o inteiramente.
Para quê dispensar assim duas horas do nosso precioso tempo? Lembrei-me muitas vezes do grito de "pass precise" que Bobby Robson dava para dentro do campo quando o pé de um jogador seu desafinava, tão mal foi a bola tratada ontem pelos jogadores do meu clube.
Mas já vinha de trás: a partida contra o Dortmund teve olhares benévolos de toda a imprensa, provavelmente condicionada pela humilhante derrota com o Ajax. Este Sporting precisa de um murro na mesa. A direcção mantém-se, o treinador também e a equipa só perdeu João Mário, que não faz lá falta nenhuma, e Nuno Mendes, contra cuja venda aqui atempadamente me assumi.
A verdade é que não somos uma sombra do que fomos. Falta foco, rigor, prazer, confiança e ambição. Falta muita coisa que Rúben Amorim, sozinho, com o seu talento de analgésico, não consegue dominar. Eu vejo jogos, não vejo resultados. Quando cheguei a casa a minha filha perguntou-me: o Sporting perdeu? Mas ela já sabe que os humores do pai não se totobolizam.
Se com o Dortmund jogámos como um Eiriceirense desta vida, frente ao Arouca quisemos espreitar a oportunidade que aparecesse da confusão, coisa que conseguimos, num frango do guarda-redes deles logo depois de termos sofrido o empate.
Tenta-se perceber um desenho de jogo e não se consegue, porque falta peito, frieza, química, codícia e dinâmica colectiva. Uma jogada com três ou quatro passes que não sejam feitos para o lado ou para trás é digna de festejo. Ontem houve uma alteração de peças, talvez pelo desgaste da jornada europeia, mas nada de melhor se vislumbrou. Matheus Nunes, apesar do golo, fez o pior jogo da época, adiantando bolas bem para lá da sua passada galopante; Paulinho já esgotou a margem de crédito, mas continua apostado numa carreira de hipertensor, quem sabe se patrocinado por uma farmacêutica.
Palhinha foi uma nulidade, coisa rara. Nuno Santos teve aquele remate que nem sabe como entrou e o centro para Sarabia assistir Matheus Nunes, mas no resto um desacerto completo. Bragança tem critério e classe, já se sabe, o problema é que esses não são propriamente os atributos mais necessários para um campo pequeno e pesado, debaixo de chuva intensa.
Enfim, não adianta estar aqui a apontar dedos, importa é dizer que ou a equipa arrebita - aproveitando também os regressos de Pote e Inácio - ou a complacência dos adeptos, que tem sido bem visível, entra na reserva.
Queremos um futebol fluído, positivo, articulado, em que os jogadores se divirtam e explorem, em benefício do jogo e dos resultados, o talento que já provaram ter. É possível? Ok. Se não for, não nos vendam ilusões e façam o vosso trabalho, aprendendo com os erros como vos compete. É que a jogar assim nem a nível interno temos hipóteses.
