DESCALÇO NA CATEDRAL - Um artigo de opinião de Jacinto Lucas Pires.
Não houve nenhum desastre, bem sei. Estamos confortáveis na pontuação, segue a vida em "modo de voo".
Sei isso tudo e, no entanto, venho propor uma leitura menos "desligada" da realidade. Há o adepto Pôncio Pilatos, que lava daí as mãos enquanto os resultados vão pingando - e depois há os outros, que veem mais longe e sabem que o futebol é mais do que futebol. Não quero dar sermões, mas talvez seja bom parar e olhar com atenção para a equipa-de-todos-nós. É que, além do mais, a Seleção é uma boa polaróide do futebol português.
Houve o episódio de Cristiano Ronaldo no jogo com a Sérvia, a sair de campo, amuado, e a atirar a braçadeira de capitão de Portugal ao chão. Foi um erro do qual o próprio deve arrepender-se. Mas é também um sintoma feio de um problema chamado "Cristiano Ronaldo na Seleção". Esse é o elefante na sala sempre que jogamos. Não digo que Cristiano não deva ser convocado - claro que deve, mesmo para jogos menos "mediáticos" ou mais "amigáveis" -, mas digo que o jogador da Juventus não deve ser visto como insubstituível e que não deve ser capitão. Os responsáveis da Seleção deviam encontrar uma forma de encenar essa mudança com o menor melindre possível. A melhor solução seria que isso viesse da iniciativa do próprio Cristiano. Imaginemos, por exemplo, que o avançado ia dar a braçadeira a Rui Patrício, desejando-lhe as melhoras. Não sei, alguma coisa que não beliscasse ninguém e ajudasse todos.
Temos muito talento que não será aproveitado ao máximo se continuarmos a jogar com um "insubstituível", obcecado com os seus recordes, e um plantel que se sente pressionado a passar-lhe a bola. Não digo sentar Cristiano porque ele tem trinta e seis anos. Digo só tirá-lo do altar para a relva: ele melhorará, os outros também, o futebol de Portugal tornar-se-á mais solto e imprevisível e poderemos ser campeões do mundo.
Depois, olhemos para as convocatórias. É uma seleção de talento, sim, mas também de estrangeirados. O que é que isso diz sobre o nosso futebol? Por vezes, fala-se do Portugal futebolístico como "país exportador" - mas não estaremos apenas a fornecer pé-de-obra qualificado para os sucessos dos outros? Nisso, o meu Benfica será dos piores exemplos (e o que me dói mais). A quantidade de craques mal emprestados, mal vendidos ou vendidos "bem demais" e antes do tempo é assustadora. Não é uma lista, é uma litania: Bernardo, Cancelo, Félix, Dias, Renato, Gedson, Florentino... (E aqui talvez um sportinguista de memória menos curta possa sussurrar: Cristiano...) Se calhar, a revolução de que o futebol português precisa é só essa: clubes que invistam em futebol e não em lucros de curto prazo. O dinheiro vai-se, a glória fica.
