DENTE DE LEÃO - Opinião de Marcos Cruz
Estas paragens no campeonato fazem parecer que o futebol se lesionou. Nada de popular acontece que a gente sinta muito e as vidas mais arrastadas enfraquecem. Por outro lado, do vazio surgem conversas fixes e, em vez de golos, as pessoas falam de si enquanto dão uns goles.
Entre os meus amigos aqui do bairro, senhores já de alguma idade, a opinião foi unânime quando lhes confessei que não sabia sobre o que havia de escrever: fale do regresso do tridente atacante. Então lembrei-me daquelas siglas que fizeram história, tipo BBC, no Real Madrid de Bale, Benzema e Cristiano, e cheguei à conclusão de que também nós temos uma: PSP.
Pode ser, de facto, que Pote, Sarabia e Paulinho reponham a ordem no ataque do Sporting, agora que a lesão do futebol permitiu ao nosso melhor marcador acabar de debelar a sua.
Entretanto, como o plantel é curto, ficamos a torcer para que Matheus Nunes e Palhinha não se magoem a defender as cores nacionais, quando se calhar devíamos era orgulhar-nos de eles lá estarem. São as realidades desiguais dos clubes hoje em dia: se há muito por onde escolher, queremos projectar os activos noutros patamares e olhar ao equilíbrio entre as partes desportiva e financeira, mas se a manta só dá à justa para tapar os pés e o cocuruto preferimos que a qualidade de jogo e os consequentes resultados não sejam beliscados pela cedência das estrelas a céus mais refulgentes.
É que, ao contrário de alguns comentadores televisivos, eu não acho que Nuno Santos e Jovane sejam, pelo menos neste momento, alternativas de peso, apesar de reconhecer que, estando em dias bons, podem dar ao jogo, como suplentes, uma verticalidade que os outros não têm.
Pote e Sarabia manobram entre linhas, mais e melhor aquele do que este, ainda falho de rotinas, e com a vantagem de acrescentarem golo (quer dizer, Pote mete, Sarabia promete, mas já não é mau quando o terceiro vértice do triângulo, em vez de fazer dele um triangolo, continua a atravessar o deserto). Dizem que de Espanha não vêm bons ventos nem bons casamentos e a verdade é que, embora Sarabia mostre por lá coisas que não mostra aqui, ainda há dias Porro se lesionou - mais um alarme a soar, esperemos que não passe de um susto.
Quem fazia falta neste Sporting era Raphinha, outra venda apressada, como a de Nuno Mendes. Sempre me encantou a fantasia do brasileiro, aliada a uma objectividade vertiginosa que agora também se prova na canarinha. Vai longe, mas infelizmente já foi para longe. E é essa falta de portadores de sonhos que hoje me assusta.
Olho para as equipas secundárias do clube e tenho dificuldade em descortinar talentos inatos, aqueles frutos suculentos por cujo amadurecimento suspiramos. Posso apontar um, Guilherme Santos, mas é um miúdo de 16 anos.
Enfim, vamos dar tempo ao tempo, talvez eu perceba menos disto do que julgo. Entretanto, que volte rápido o campeonato, o meu bairro agradece.
