DESCALÇO NA CATEDRAL - Opinião de Jacinto Lucas Pires
Não sei se os estimados leitores deram conta do protesto da seleção da Noruega, chamando a atenção para os trabalhadores migrantes que perderam a vida a construir os estádios do Mundial do Qatar. Foi um gesto simbólico, sim - e os símbolos valem muito. A minha pergunta é: porque é que os jogadores portugueses não fizeram algo parecido?
A alegria do futebol! A alegria, a alegria é essencial. São as únicas equipas que jogam sem publicidade nas camisolas, as seleções. Se a equipa de todos nós não joga com alma e alegria, quem jogará?
(Já que estamos em maré de perguntas, permitam-me que salte de assunto, para falar do Benfica. Qual é a lógica de ir buscar Diego Costa? Tratar-se-á de mais um episódio da novela "Atirar areia para os olhos"? Perante o fracasso desta época, vai-se buscar um "nome", a ver se isso cala o "terceiro anel" - será isso?)
Bem, perdoem-me o desabafo, volto já à seleção - depois de falar de Lopez Lomong, cuja história o meu telemóvel me contou esta semana, durante uma corrida para "espalhar o frio". Ele era um miúdo de seis anos, no Sudão do Sul, quando foi raptado por rebeldes. Os miúdos mais velhos são levados para a guerra, os outros ficam presos. Não podem sair nem para ir à casa de banho; como comida, recebem um balde com grãos e areia; vários miúdos morrem. Três rapazes mais velhos (de 13-14 anos) reconhecem Lopez da aldeia e protegem-no. Uma noite, fogem com ele. Correm horas, dias. Ao quarto dia, são apanhados por outro exército. Tinham passado para o Quénia sem dar conta; e são levados para um campo de refugiados, onde Lopez viverá uma década. Aí, a grande alegria é o futebol. Há tantos miúdos a querer jogar que a regra é dar uma volta a correr ao campo de refugiados para poder futebolar. Uma distância de trinta quilómetros! Lopez faz isso na bisga, porque ama o jogo da bola. Até que, um dia, num televisor a preto e branco, vê os Jogos Olímpicos. Riscos no chão, e um homem negro como ele a correr e a ganhar. Michael Johnson. O grande campeão vence e chora - Lopez achava que os "homens africanos" não choravam. Aquilo comove-o, inspira-o. Desde então, sonha correr nas Olimpíadas. E, depois de mais umas voltas da vida, e muito trabalho, consegue lá chegar.
A alegria do futebol! A alegria, a alegria é essencial. São as únicas equipas que jogam sem publicidade nas camisolas, as seleções. Se a equipa de todos nós não joga com alma e alegria, quem jogará? Portugal tem um talento doido, não podemos cumprir funcionariamente. Não basta ganhar com um autogolo do Azerbaijão. E não se pode largar o acelerador contra a Sérvia. (Claro que o árbitro nos tirou um golo no fim, mas devíamos ter feito mais. Pôr João Félix para os últimos minutos, que raio de ambição é essa?) Atentemos na Noruega, e no exemplo de Lopez. Só assim - se acreditarmos, se formos o melhor de nós - poderemos ser campeões do Mundo. Daqueles que ficam para sempre.
