Um bom capitão - o tal, o mítico - quando a equipa treme, pede a bola em vez de pedir desculpa. Não é o que fala mais: é o que se esconde menos
Hoje, um capitão serve para três coisas: para parecer que há ordem, para dar a cara quando não há respostas e para manter a ilusão reconfortante de que alguém manda dentro do campo. É uma figura útil, como um extintor: não garante que não haja incêndio, mas tranquiliza saber que está ali.
A figura do capitão mudou porque o futebol mudou. Antes, o capitão era o chefe da tribo: mandava, ralhava, encostava cabeças quentes à parede e, se fosse preciso, fazia uma falta "pedagógica" para lembrar ao adversário que aquilo não era um retiro de ioga. Hoje, o capitão é muitas vezes um gestor de danos com braçadeira. Mas a braçadeira continua a ser coisa séria - só mudou o tipo de seriedade. O capitão moderno serve para absorver ruído: um erro do árbitro, uma confusão, um colega a perder a cabeça, a bancada a ferver, o jogo a fugir, o treinador a querer passar um recado sem parecer que está a improvisar a tática num guardanapo. É o tradutor simultâneo entre quatro línguas incompatíveis: balneário, banco, árbitro e público.
Também regula o ego coletivo. Uma equipa é um conjunto de homens adultos a correr atrás de uma bola, todos com a certeza íntima de que são indispensáveis e injustiçados. O capitão bom é o que diz duas frases curtas - "calma", "não entres nisso", "joga simples" - e evita que a equipa se transforme num debate parlamentar em sprint. E percebe cedo quem saiu do jogo sem estar lesionado: o extremo que começou a jogar sozinho, o médio que deixou de pedir a bola, o central que já só alivia. Um capitão lê a equipa como se lê uma sala: sente a temperatura antes de aparecer a febre.
A parte mais ingrata é que o capitão também serve para ser o "adulto na sala" quando ninguém quer ser adulto. É o primeiro a ir à flash interview dizer "assumimos a responsabilidade" - expressão que, em futebolês, significa: "Não faço ideia do que se passou, mas alguém tem de falar e eu tenho a braçadeira". É o porta-voz do balneário, mesmo quando o balneário preferia fugir para dentro do autocarro e fingir que não existe televisão.
Dito isto, quando é bom, nota-se logo. Um bom capitão - o tal, o mítico - quando a equipa treme, pede a bola em vez de pedir desculpa. Não é o que fala mais: é o que se esconde menos. É o pára-raios que mantém a equipa inteira quando tudo a puxa para se partir. E essa, no fundo, é a única liderança que o VAR ainda não consegue anular.

