VELUDO AZUL - Um artigo de opinião de Miguel Guedes.
Hoje, dia do pontapé de partida para o Mundial"22, o mais contestado e invernoso de sempre, as atenções focam-se mais na cerimónia inaugural do que no jogo do Catar contra o Equador.
Para muitos, mesmo os que gostam de futebol, o lado B deste Mundial não deixará de desfilar, em permanência, de A a Z. Costumes, direitos, boicotes, diversidade, morte, regras, punições, desconforto, controlos, esquemas, interesses.
Após imensas recusas, entre entidades, personalidades e artistas que não aceitaram estar ou atuar no Catar, a cerimónia procurará fazer o "countdown" para uma prova em que tudo é menos do que normal, desde a atribuição da organização ao anfitrião, até ao primeiro minuto de jogo. Veremos se o que acontece, dentro e fora do campo, permitirá ampliar a incomodidade ou atenuar as dúvidas. Mas apesar das emoções e do algodão que só o futebol é capaz de convocar, nenhum pano limpará e fará esquecer o espectro da morte de milhares de trabalhadores na construção dos estádios.
Portugal parte no lote dos candidatos ao ceptro, maior "outsider" entre as seleções sem o título, e não pode deixar um lote de extraordinários jogadores trair uma equipa. A solidez do coletivo pode fazer desta seleção campeã mas as personalidades terão que falar a tempo de se colocarem ao serviço. Os bons indícios frente à Nigéria são isso mesmo, boas premissas que terão que dobrar a aposta frente ao Gana, primeiro jogo do nosso grupo. Desse jogo particular, uma imagem que incomoda muita gente: Otávio. Apesar do luso-brasileiro fazer mais uma exibição gigante, claramente o melhor em campo, vê um conjunto de "bots" e parte da comunicação social menorizar o seu desempenho. Se esta for uma seleção de interesses e partidarismos clubísticos, só Ronaldo nos salvará, coletivamente, enquanto único jogador sem clube a dizer presente. Otávio fará seguramente mais por esta equipa do que quem abdicou de a representar.
As interpretações sobre a ligação entre Bruno Fernandes e Ronaldo merecem um "update" que só o campo trará. A compatibilização pode não parecer "united" e compreende-se a mágoa do médio ofensivo, esquecido por CR7 nos parcos elogios que fez a apenas alguns na entrevista a Piers Morgan. A maior redenção e ajuste à realidade acontecerá aquando da primeira assistência teleguiada, "strawberry flavour", de Bruno para CR. As contusões podem ser de índole diversa, como se comprova pela lesão do Bola-de-Ouro-Benzema, afastado do Mundial, por uma lesão na coxa. Na trincheira portuguesa, só uma maleita psicológica pode travar-se de razões com o êxito. Se alguém falhar, só o coletivo resolve. É tempo de conseguirmos identificar uma equipa.

