Maradona, Reinaldo Teles e Vítor Oliveira: não foi só o futebol que ficou mais pobre. E isso faz-me lembrar uma música...
Para lá da tendência exacerbada das loas, elegias e lamúrias publicáveis quando uma figura muito conhecida morre, nós, os que não lhes éramos amigos ou sequer conhecidos, não deixamos de sentir a perda. Uns mais do que outros, claro.
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Mas acabo sempre a pensar nos que sentem bem mais do que a perda. Ou melhor, nos que sentem a dor da perda: a família, os amigos, os amores. Por isso, nunca sei se estaremos ou não a retirar dignidade à verdadeira dor.
Mas parece impossível passar ao lado. É como fazer justiça e acharmos que a mesma depende da nossa pena. De Maradona, fico-me pela noção de sagrado. Do treinador português Vítor Oliveira, ontem falecido, fica-me a memória de um almoço onde eu estava por atacado e onde ele falou sem quaisquer grilhetas. De Reinaldo Teles, a certeza de que empatizámos por razões que nem sequer têm a ver com futebol. E sim, era um cavalheiro, gentil e honrado. E sempre a pairar muito acima da imbecilidade do reino do preconceito clubístico, papagaiado nas ondas hertzianas ou por cabos analógicos e digitais. Penso, então, nos que lhes eram realmente próximos, por amizade, por sangue ou por amor, gente com quem me apetece partilhar uma estrofe escrita por Miguel Esteves Cardoso, tocada e cantada pela Sétima Legião, chamada Glória: "(...) Os deuses não te hão de levar / Sem que eu der a mão / Para ser par / Sermos dois a partir / E depois a voltar". E acho que fica tudo dito sobre a glória, a impossibilidade do irrepetível e a eterna invisibilidade. Os deuses nunca levam a memória, não conseguem. Essa é a glória.
Sempre a pairar muito acima da imbecilidade do reino do preconceito clubístico, papagaiado nas ondas hertzianas ou por cabos analógicos e digitais
Confesso que não me apetecia escrever nada sobre isto, nem sequer para tentar amenizar-me quando penso que, algumas vezes, é algo pornográfico aproveitarmo-nos da capacidade de mexer com as sensações alheias para gerar audiências. Nunca me apetece escrever quando todos perdemos.
