O zero da tolerância das bancadas é sempre mais frio e cruel do que outros zeros. Isso sabe-o Frederico Varandas, atual presidente do Sporting, que há um ano, mais coisa menos coisa, sabia diagnosticar o impacto dessa ferocidade dos adeptos nos níveis de ansiedade e nervosismo dos jogadores.
No futebol, uma chicotada psicológica sempre foi, nos seus primeiros momentos, uma ação política e não uma medida de resolução com o mínimo de ciência. É, por isso, bem justo que as rescisões dos treinadores sejam hoje uma gratificante recompensa para os próprios.
José Peseiro, contratado por Sousa Cintra no "verão quente" leonino, soube o que ia arriscar ao pegar num emblema sem plantel definido, com jogadores em fuga, outros de volta, alguns à espera dos conselhos de advogados e empresários e outros sabe-se lá a pensar no que haveriam de fazer.
Desta vez, ao contrário da passagem pelo FC Porto, em 2016, para render um também recente "chicoteado" - Julen Lopetegui -, Peseiro sabia que o estalar estava ao virar de cada esquina, que é como quem diz, à mais pequena sensação do "isto assim não pode continuar". E, sabe-se, quando assim é, o primeiro a cair é sempre o treinador.
Neste caso, e porque Peseiro não era o treinador escolhido por Varandas - já lá estava quando as eleições ditaram o novo presidente -, foi o cordeiro sacrificado aos primeiros sinais de inconformismo das bancadas, esse temível medidor de (in)satisfação.
Ora, se os níveis de tolerância do Sporting se mantêm muito baixos, depois de uma era "brunística" que estilhaçou estruturas várias, então Varandas está a elevar fasquias cedo de mais.
A derrota em casa com o Estoril não hipotecou absolutamente nada nos objetivos dos leões, nem sequer a continuidade na Taça da Liga, título que defende. No campeonato, o Sporting é quinto, com apenas menos dois pontos que os líderes FC Porto e Braga. E na Liga Europa é segundo do Grupo E, com todas as hipóteses de passar à fase seguinte.
Portanto, ou Varandas tem na manga um daqueles treinadores que só pelo nome garante meia dúzia de pontos na época inteira, ou quer dar um sinal que ainda não é possível descortinar. Aos adeptos? Aos jogadores? À Direção? À oposição? Aos investidores?
Ou seja, o presidente do Sporting usou a seu favor o benefício da dúvida que José Peseiro pensava ainda ter. É que ficam muitas dúvidas sobre o timing da decisão de Frederico Varandas em despedir José Peseiro, mas ser-se presidente é ter prioridade nesse benefício.
