Durante a sua época e meia em Portugal, Julen Lopetegui, apesar de nunca ter deixado cair o FC Porto para lugares menos meritórios da classificação, deixou a perceção de que, como treinador, acrescentava muito pouco. E como líder, quase nada. Depois, na seleção de Espanha, conduziu um apuramento imaculado para o Mundial, o que devia valer zero face ao que se exige a um treinador do Real Madrid.
Julen Lopetegui saiu condenado de Barcelona pela derrota por 5-1. A execução de uma sentença anunciada não demorou mais de 24 horas: deixou o comando técnico do Real Madrid, cargo que assumiu no verão passado, há quatro meses.
É normal, o futebol é cruel quando não aparecem os resultados desejados. No entanto, em Portugal vive-se uma dúvida desde julho: o que viu Florentino Pérez em Julen Lopetegui que nós por aqui não tenhamos visto? O presidente do Real Madrid terá visto um apuramento para o Mundial da Rússia praticamente imaculado da seleção espanhola, praticamente só com vitórias, à exceção de um empate frente à Itália.
"Falhar no Real Madrid e ter traído a seleção espanhola irá pesar no consciente dos que equacionarem resgatá-lo ao desemprego."
Só que a afabilidade de um Lopetegui selecionador, que não acrescentou valor à qualidade técnica dos selecionados, nem sequer foi trunfo quando se lhe pediu a liderança de uma equipa de estrelas que perdeu um capitão carismático: Cristiano Ronaldo.
Nós conhecemos esse Lopetegui afável, de bom trato e a tentar comunicar ciência da bola. Mas percebeu-se, pela sua passagem pelo FC Porto, a primeira como treinador de um clube, que lhe faltava ousadia desportiva e convicção na forma como interage com o plantel ou com o mundo que o rodeava.
A saída do Real Madrid poderá significar uma longa travessia do deserto do treinador nascido no País Basco, há 52 anos. Um deserto temporal ou um deserto mediático, que isto de falhar no Real Madrid e ter traído a seleção espanhola irá pesar no consciente dos que equacionarem resgatá-lo ao desemprego.
O futebol é cruel quando o insucesso marca o currículo dos seus intérpretes. Aqui em Portugal, o seu nome esteve intimamente ligado ao nosso campeonato, graças à sua passagem pelo FC Porto (segundo lugar em 2014-15 e metade da época seguinte), emblema que o dispensou em janeiro, após perder duas oportunidades de subir ao primeiro lugar (derrota em Alvalade e empate em casa frente ao Gil Vicente).
O seu outro episódio que lhe poderá agora ser fatal - na altura, considerou-o ser a subida de um nível - aconteceu quando aceitou ser o treinador do Real Madrid, no defeso passado. O anúncio público da contratação pelos "merengues" levou a Real Federação a decidir-se pela sua dispensa em pleno estágio do combinado de "La Roja", a dois dias do início do Mundial da Rússia.
Portanto, palpita-me que o deserto é mesmo o seu futuro próximo: ou um retiro forçado da atividade ou o exercício da mesma num qualquer campeonato nos países árabes ou asiáticos, onde o investimento no pontapé na bola só não é desperdício para os magnatas do petróleo, do gás ou das telecomunicações.
O 5-1 sofrido em Camp Nou, diante do seu maior rival, foi apenas a gota de água para um adeus anunciado. Os resultados desportivos dos madridistas, sobretudo no campeonato, são péssimos, mesmo que ainda só tenham decorrido dez jornadas: nono lugar, com 14 pontos, a sete dos catalães, primeiros classificados.
"Florentino ofereceu o número 7 de Cristiano Ronaldo ao desconhecido Mariano Díaz."
Mas Lopetegui não é o solteiro da culpa. É apenas vítima de si próprio. Custa-me acreditar que Florentino Pérez tenha visto em Lopetegui um futuro estruturado para o Real Madrid. Ou até de reestruturação do plantel. E somam-se as críticas, sobretudo da Imprensa e comentadores mais afetos ao emblema da capital, que apontam os erros de planeamento do presidente.
Convenhamos, o presidente do Real Madrid já sabia que a saída de Cristiano Ronaldo estava iminente quando contratou o basco. Depois, quando se perde um jogador com as características de Ronaldo, algum outro nome sonante teria que ter surgido, pelo menos como um mero placebo para confundir as dores da perda. E nada disso aconteceu. Aliás, numa atitude sintomática, Florentino ofereceu o número sete de Cristiano Ronaldo ao desconhecido Mariano Díaz, da República Dominicana, embora com naturalidade espanhola.
A "7" tem o seu quê de mítico no Real, nomeadamente por ter sido durante muitos anos envergada por Raúl González e, de seguida, por Cristiano Ronaldo, que esteve obrigado a vestir a "9", na sua primeira temporada em Madrid, até à saída do antigo internacional espanhol.
Nomes como os de Modric e Bale, sob o ponto de vista de impacto social e desportivo - coisa que em Madrid pesa bastante - talvez não cheguem para manter bem acesa a chama da ambição. Mesmo sem qualquer surpresa pela saída de Ronaldo, a verdade é que Florentino Pérez não tinha um plano B para o enorme buraco no plantel, aberto com a saída do internacional português e um dos melhores futebolistas de sempre.
