A propósito do festim mediático com o caso Bruno de Carvalho, é nestas alturas que me lembro de Voltaire, o filósofo francês do século XVIII que revolucionou a Europa com os seus princípios iluministas, levando ao fim dos absolutismos. É a ele que devemos algo que ainda hoje se tem como basilar no Estado de Direito: "É melhor absolver um culpado do que condenar um inocente".
Isto a propósito da "incompreensão das pessoas" - sim, há responsáveis e comentadores nos Media que assim se expressam - relativamente à decisão do juiz de instrução do processo de Bruno de Carvalho, ex-presidente do Sporting, libertado por ausência de provas concludentes que pudessem determinar a sua prisão preventiva.
Começo por dizer que, para mim, o caso de Bruno de Carvalho não merece os elevadíssimos níveis de mediatismo e de especulação que as televisões - umas mais do que outras - lhe têm oferecido. E foco-me mais nas televisões pelo impacto que as mesmas (sabem que) têm junto das massas populares, aquelas que sentenciam almas alheias pela rama ou pela espuma da informação.
Não sei se Bruno de Carvalho é culpado dos crimes que lhe são imputados pelo Ministério Público. Quero saber, claro!, mas ainda não sei. Porque quero saber, quero que o Estado de Direito funcione. Pelos vistos, também o juiz de instrução criminal, que considerou haver falta de "fortes indícios" do que é acusado o ex-presidente e o líder da claque.
Como cidadão de um regime democrático e como contribuinte, quero que a Justiça se faça pelos procedimentos que nos são comuns e não pelo impacto atemorizante da sucessão de horas em canal aberto dedicadas à personagem. Ou seja, o Ministério Público que faça bem - ou melhor - o seu trabalho. E sem querer parecer injusto, também digo que faltam ao MP, muitas vezes, os meios adequados. Mas isso é outra conversa.
"Por muito complicado ou mediático que seja todo este processo, isto não pode funcionar como num circo romano da Antiguidade"
Sobre Bruno de Carvalho, tenho a convicção de que perdeu, ainda enquanto líder leonino, o controlo da sua própria presidência. Mesmo que - e só as autoridades judiciais e de Justiça o poderão dar como provado - tenha dado ordem de assalto a Alcochete ao "exército privado" (assim funcionam as claques em todo o mundo), é preciso perceber-se que, apesar de ser (insisto, a provar-se) um gesto indigno e criminoso, não foi uma ordem de chacina.
Por outro lado, e tendo em conta as regras de convivência, nomeadamente entre pares do clube, considero perfeitamente admissível que se vá votar a sua expulsão ou continuidade como sócio do Sporting, porque os comportamentos de rufia - esses sim - não oferecem já muitas dúvidas. Mas isso não tem a ver com o País, tem a ver com o clube e é questão interna do quotidiano sportinguista.
Por muito complicado ou mediático que seja todo este processo, isto não pode funcionar como num circo romano da Antiguidade, onde só havia duas sentenças possíveis: polegar para cima, deixa-se viver o gladiador tombado; polegar para baixo, mata-se o vencido.
O problema está, precisamente, na carga da palavra "criminoso". Não gosto de ver a facilidade com que as pessoas, alguma gente até com educação acima da média, "dinamitam" mediaticamente a forma como se encara a acusação e as não sei quantas dezenas de crimes que lhe são imputados. Basta esse exemplo: "98 crimes e mais alguns de terrorismo". Bem, na realidade até são meia-dúzia de tipos de crime, multiplicados pelo número de jogadores e staff que estava em Alcochete. Mas a forma como se comunica...
Sobre a decisão do juiz - Bruno de Carvalho libertado e à espera de outros procedimentos judiciais em liberdade -, prefiro continuar a acreditar no fundamento basilar da Justiça: mais vale um culpado livre do que um inocente na cadeia. Até porque, como andam as coisas no Mundo, não vá Bruno de Carvalho ser queimado vivo em praça pública antes de se provar que é inocente ou culpado.
