Declaro já que sou contra as touradas, essa tradição das províncias de Lisboa e Ribatejo. Nenhum animal deve ser usado para benefício humano, à exceção da condição primária de sobrevivência (até essa discutível): alimentação. E sou dos que convivo muito bem com as dúvidas sobre o que é ou não estruturalmente cultural. E o que é que isto tem a ver com futebol?
O conceito de Cultura (também ele difuso nas conjunturas, timings e eras civilizacionais) anda muito baralhado na cabeça de todos nós. Se há uma ou duas províncias do País - Lisboa e Ribatejo - onde a tourada é considerada cultura, por se tratar, intrinsecamente, de um espetáculo com tradição, com rituais e modelos artísticos, então também era Cultura quando se lançavam cristãos aos leões, nos circos romanos.
Há uma verdade, apenas uma, na questão das touradas: é um espetáculo. Para mim, um espetáculo abominável, mas espetáculo. Enquanto existir, deve ser enquadrado nesse conceito. Bem, então se é espetáculo, todos os outros espetáculos devem ser tratados da mesma forma.
Se as províncias de Lisboa e Ribatejo têm um gratificante benefício dedutivo nas finanças da indústria tauromáquica e nas finanças pessoais dos seus artistas e promotores, não estou a perceber que tipo de lógica discricionária mantém os espetáculos de futebol nos valores máximos do IVA.
"O futebol pode e deve, então, ser entendido como uma atividade artístico-cultural"
Sim, já agora, convém que os detratores da tauromaquia - onde me incluo - percebam que o PAN deu um tiro no pé quando conseguiu que as touradas perdessem a isenção do IVA, proposta que foi aprovada, na generalidade, na discussão do Orçamento de Estado.
Conforme melhor explicado neste link, e na opinião de alguns fiscalistas, passando a taxar as touradas com IVA, podem até subir os preços do espetáculo, mas os seus intervenientes acabam por sair a ganhar, uma vez que podem começar a deduzir os seus gastos. E sabem quanto custa um cavalo de lide? E aqueles fatos bimbo cheio de lantejoulas? Vão custar menos aos toureiros e aos forcados.
Futebol é, no mínimo, uma arte e um espetáculo
O futebol pode e deve, então, ser entendido como uma atividade artístico-cultural, usando a mesma argumentação lógica sobre o fator "tradição" na definição de cultura da nossa classe de políticos com muita dificuldade em assumir o seu papel de estadistas.
A indústria do futebol é um sério contribuinte português. Em impostos, segundo as contas do último anuário (2016/17) do futebol profissional, contribuiu com mais de 40 milhões, só nessa época. E não há notícias de falhas nas contribuições de lá para cá. Mais: contribuiu com mais de 450 milhões para o Produto Interno Bruto (PIB), o equivalente a 0,25 por cento do mesmo.
A exemplo dos restantes promotores de espetáculos, o futebol, estádio a estádio, é o espetáculo ao vivo com maiores assistências em Portugal. Talvez, com bilhetes mais baratos, à custa do IVA a seis por cento e não a 23, as gentes de Chaves, Faro, Viseu, Aveiro, Tondela, Portimão, Funchal... pudessem ir mais vezes apoiar as suas equipas.
Um país deve ser como um sistema de rodas dentadas, todas as circularem agregadamente entre si. Como nesses mecanismos, quando os dentes de algumas rodas são maiores que os outros, as máquinas encravam e desgastam-se com muita facilidade. Ou não funcionam.
