Incidentes como o da Luz são eternizados pela mania das generalizações. Continuar a culpar todos é continuar a culpar ninguém
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Há duas semanas, na Assembleia da República, ouvimos um procurador, um superintendente da PSP e um coronel da GNR pedirem mais interdições de estádios e adeptos banidos, embora com o asterisco de também nos terem dito que não conseguem controlar se esses adeptos continuam, ou não, a ir ao futebol (pausa para uma palmada na testa). Nessa altura, disseram-nos que havia dez singelos cidadãos banidos (segunda palmada). Só esta época, a olho nu, qualquer um de nós seria capaz de apontar o triplo de candidatos e faltará contabilizar todos os incidentes que a televisão não mostrou. Para além de terem sido muitos, andamos há anos a noticiá-los e a falar neles. Não devia ser preciso ouvir ninguém na AR. O procurador, o superintendente e o coronel são o Estado. As informações deles são as informações do Estado. Episódios como o de anteontem na Luz acontecem porque o Estado autoriza. Culpar "as claques" e "os clubes", ou "o futebol", é como culpar "os cidadãos" quando há um crime. Quando há "um" crime, há "um" culpado. Quando o culpado é, invariavelmente, o mesmo, há um problema identificado que não se resolve com generalizações, vá lá, diplomáticas ou paridas pelo politicamente correto. Vivemos numa eterna epidemia de generalizações, que se desculpa com a necessidade de não agravar conflitos, quando, na verdade, sempre foi o primeiro passo para nunca os resolver.
