DENTE DE LEÃO - Um artigo de opinião de Marcos Cruz.
Torna-se difícil, hoje, não olhar o futebol sob o prisma da guerra. Aliás, torna-se difícil não olhar seja o que for sob o prisma da guerra.
Estamos a assistir a um choque de absolutos, como naqueles duelos em que um dos cowboys diz ao outro: "O mundo é pequeno para nós os dois". E o futebol acredita. O futebol e toda a vida social, que se verga perante aquela barbaridade. Mas não é a guerra que tem de ensinar o futebol, é o contrário. Como não é a guerra que tem de comandar a moral, é o contrário. Esta submissão dos nossos princípios, individuais e coletivos, aos imperativos da guerra, ditados por senhores sem alma nem razão, compromete-nos o presente e o futuro. E não há vida, nem há jogo, sem que o outro se expresse. Ouvi-lo faz parte das regras invioláveis. Violá-las é invadi-las, é invadir-nos, é invadir o direito que temos a ser informados, e qualquer jornalista aprendeu que para uma história há sempre duas ou mais versões.
O que assim estamos a fazer, concedendo em julgar o povo russo pela bitola com que julgamos o seu presidente, é uma guerra a tudo o que de bom a humanidade conquistou. E os media têm desempenhado nisso um papel autofágico, relativamente ao sentido da sua existência: informar. A história única não dá bom resultado. Tivessem os índios a capacidade dos cowboys para difundir a sua versão da história e a História não seria a mesma. Seria mais verdadeira, mais justa. E no plano da lei, da lei que reflete os nossos interesses comuns, os interesses de um mundo que se alardeia global, só se vence assim. Ganhar é um conceito de largo espectro, e nós por cá parece que nos queremos agarrar à sua ponta mais rasteira, sem perceber que perdemos todos com isso. O basismo medra, o extremismo cresce e fortalece-se, a qualidade do ar cai a pique. Precisamos do desporto e do jornalismo para nos darem oxigénio, para nos motivarem a não tomar a árvore pela floresta, em vez de lhe deitarem fogo.

