DENTE DE LEÃO - Uma artigo de opinião de Marcos Cruz.
A confiança é um factor determinante em todas as dimensões da vida, mas o futebol, pela exposição que tem, demonstra-o talvez como nenhuma outra atividade social.
Olhar para Neto desde que ele regressou a Portugal e vê-lo jogar anteontem contra o Benfica é achar que se está perante dois jogadores diferentes, mas a realidade diz-nos que não, que aquele de quem eu sentenciei aqui não ser jogador para o Sporting se apresenta hoje como um patrão capaz de substituir sem prejuízo significativo o grande esteio da equipa, o monstro Coates, também ele protagonista de uma transformação impressionante às mãos de Rúben Amorim.
Se há coisa que se tem tornado evidente é que a primeira força dos leões está na união do grupo em torno da visão e da ambição do seu treinador. De facto, e embora tendo chegado ao início desta edição da Liga como campeão, o Sporting não partiu, na teoria, com as melhores armas: o plantel era, e é, mais curto que o dos rivais, as estrelas não davam para uma constelação e a juventude acarretava riscos que teriam de ser compreendidos pelos adeptos, que - igualmente importante - voltavam a manifestar-se no estádio. Mas com o tempo a coesão familiar e a confiança que todos têm em si mesmos e uns nos outros foi encontrando expressão futebolística, a ponto de se sentir, já antes do início do jogo da Luz, que a falta de dois pilares como Coates e Palhinha não iria alterar em muito a disposição da equipa nem o seu desempenho, e esse "feeling" foi amplamente comprovado. Ugarte rugiu na hora da chamada e aproveitou a oportunidade, trabalhando muito, não apenas a varrer mas também a permitir que Matheus Nunes se soltasse e, assim, pudesse depenar a águia. Quando penso que este portento luso-brasileiro, hoje jogador da nossa seleção, era há três anos funcionário de uma pastelaria na Ericeira volto a olhar para a vida como uma coisa maravilhosa, imprevisível, com imenso potencial de descoberta. Rúben Amorim tem perfil de arquiteto paisagista e jardineiro e fez do Sporting um jardim que, desenhado com simplicidade, cresce depressa e bem - o provérbio diz que há pouco quem, mas neste caso está à vista.
O técnico sabe que o seu trabalho lhe foge parcialmente das mãos, porque lida com matéria viva, e nenhuma das plantas de que cuida é um projeto concluído, por mais idade que tenha. Adán foi outro que me fez morder a língua - está um muro. E é tão fixe quando a razão nos foge por boas razões. Assim, adoro reconhecer que errei. Sinto que também eu, como analista, cronista ou lá o que for, estou a crescer. Junto aos jogadores, no jardim de Amorim.
