DENTE DE LEÃO - Um artigo de opinião de Marcos Cruz.
Sérgio Conceição tem toda a razão quando critica o enxame de comentadores televisivos que trazem a conversa sobre futebol para um nível baixíssimo.
Há coisas no momento actual deste desporto que eu mudava já, em seu benefício: uma delas era acabar com os directores de comunicação dos clubes, ou impedi-los de promover a guerra.
O futebol joga-se no relvado, aí deve lutar-se rijamente pela vitória, ainda que dentro de regras. Cá fora, para que um presidente de clube se arrogue o direito de criticar a máquina de propaganda de um rival tem de olhar a como funciona a sua. E os três grandes são nisto o pior exemplo, a ponto de, pelas suas responsabilidades, irem mais baixo do que os ditos comentadores televisivos. Sérgio Conceição deixa, assim, de ter toda a razão, traído na própria casa: quem vive sob telhados de vidro não atira pedras ao vizinho. Varandas, Rui Costa e Pinto da Costa não se livram deste dedo apontado, a menos que, e já tardiamente, redefinam o exemplo que querem transmitir. Outra coisa que eu mudava era a largura de movimentos dada ao VAR.
Por amor de Deus, o homem parece um árbitro de campo, quando deveria ser mais cirúrgico que um acupunctor: a espetar a agulha, só mesmo no ponto certo. O overacting e a dualidade de critérios são a maior mola para fazer os trogloditas saltar das suas cavernas e reinstalar a confusão, semana após semana. E finalmente, embora haja outras coisas que mudaria já no futebol, montava uma campanha, unindo Liga, FPF, clubes, APAF e por aí fora, ou seja, os vários organismos e agentes deste desporto, que dissuadisse os canais televisivos de dar cabo dele. Irrita-me estarmos no epicentro da mentira, onde os que se mostram mais preocupados com a guerra são quem mais a promove. Detesto hipocrisia, como Conceição diz detestar. Esta realidade degradante, reles, afasta as pessoas do futebol. Mas, pior, afasta-as umas das outras. Quando falo de guerra falo de guerra mesmo. O futebol tem um poder enorme enquanto bitola comportamental na sociedade, em contexto competitivo. Se a vontade de ser melhor que os outros se resume a ganhar mais que os outros, independentemente dos danos, das fake news, das negociatas sujas, da violência e de toda a sorte de exemplos cretinos, então somos também responsáveis, à nossa escala, pelo declínio do mundo tal como o conhecemos. Acabo com uma curta história: na na sexta-feira fui a um bar. Estava lá um rapaz russo, sozinho. Mal lhe perguntei a nacionalidade desatou a chorar. "I"m so ashamed", disse. "Sorry, sorry". Na minha impotência, respondi-lhe: "Stay strong, brother. I also feel ashamed that you feel ashamed".

