BOLA DE TRAPOS - Um artigo de opinião de Miguel Carvalho.
Se perguntarem a um taxista do Porto ou ao dono de um bar na Ribeira como viveram a invasão inglesa ocorrida na cidade no último fim de semana, a pretexto da final da Liga dos Campeões no Estádio do Dragão, provavelmente vão encontrar narrativas diferentes da que tanta polémica tem gerado entre responsáveis políticos, entidades do Estado e forças policiais.
Sim, as entusiastas e destravadas excursões de adeptos britânicos não tiveram a bolha de proteção e a segurança prometidas nem sequer as máscaras e o gel recomendados.
O comportamento ordeiro que se pedia em tempo de pandemia foi o que se viu. E, como já várias vezes aconteceu com portugueses (vide festa do Sporting campeão), saiu tudo ao contrário.
No entanto, o taxista que, por estes dias, me calhou em sorte num serviço, faz outras contas. Na verdade, graças aos magotes de adeptos do Chelsea e do Manchester City, amealhou em três dias pecúlio suficiente para aguentar os próximos meses a "seco" ou com maré baixa de turistas. De resto, ainda lhe saiu na rifa um casal que, sem pestanejar, pagou alegremente uma "corrida" do Porto até ao aeroporto de Tires, onde os aguardava um avião privado para regressarem à santa terrinha de Sua Majestade. Quanto ao forrobodó da Ribeira, com cânticos, empurrões e pancada distribuída "à ceguinho seja eu", é sempre bom lembrar que teve um resultado líquido (também literal, diga-se) que não se pode desdenhar em tempos de grave crise.
Como se vê, há sempre formas diferentes de olharmos para estas coisas.
Os excursionistas ingleses podem, voluntariamente, ter contribuído para que o número de infetados pelo coronavírus dispare nos próximos tempos por estas bandas, mas rechearam os bolsos do comércio local como há muito não se via. Chamem-lhes "vândalos", como em tempos Bill Buford fez num clássico da literatura sobre futebol, mas as cervejas vendidas a seis euros cada - para os "bifes" aprenderem - e o taxímetro a contar pela estrada fora contam outras histórias. Enquanto isso, Governo, Câmara Municipal do Porto e demais instituições da nação envolvidas no prometido "cerco" do Porto aos britânicos passaram a última semana entretidos com outro desporto nacional muito em voga, cuja prática vem de longe, chamada "passa-culpas". Aqui chegados, ainda não se percebeu bem quem, para além do "City" de Pep Guardiola, falhou no momento em que não podia falhar. Pelo andor, não teremos resposta para breve. Podemos, pois, ficar aqui enredados em incidentes diplomáticos e descobrir que os ingleses também nos deixaram de calças na mão agora que, desmontada a tenda e avaliados os estragos, consideram o nosso País pouco seguro para viajar. Mas talvez estivéssemos a precisar de voltar às sebentas da História para saber que, se calhar, antes como agora, confiamos em demasia no verniz do Império Britânico, tão habituado a submeter outras nações ao seu domínio e interesses.
Entretanto, o Governo socialista de António Costa, munido de novos dados por parte dos especialistas,
decidiu acalmar as tribos da bola com o anunciado regresso ao circo (outra receita antiga): a partir de dia 28 do corrente mês, 33 por cento da lotação dos estádios já poderá ter público, não vá a malta exaltar-se depois da mais recente "telenovela" britânica. "Com adeptos na Champions, o Governo tem de abrir os estádios aos portugueses. Senão nem sei o que pode acontecer", avisara há dias Fernando Madureira, dos Super Dragões, deixando no ar um certo aroma a enxofre. Pior, só mesmo um líder de claque para mostrar ao primeiro-ministro como se governa... o estádio a que chegámos.
