BOLA DE TRAPOS - A opinião de Miguel Carvalho, aos domingos n'O JOGO.
Vá lá, admitam: foi um alívio para todos a eliminação da Hungria do Euro"2020.
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Para a UEFA, é menos um problema "político" com o qual tem de lidar, pois sabemos bem como o organismo máximo do futebol europeu sente um friozinho na espinha sempre que o jogo lhe foge das mãos. Seja porque um guarda-redes (Manuel Neuer) decide usar, sem pedir licença, uma braçadeira arco-íris ou porque um estádio (Allianz Arena) se ilumina para lembrar, na prática, que todos somos diferentes e nem por isso deixamos de ser iguais.
Nas palavras e nas redes sociais, a UEFA é porreira, ecuménica e toda palmadinha nas costas: alinha pela diversidade e é contra o racismo, defende os direitos LGBTI, quer um mundo melhor para todos e paz na terra aos espíritos de boa vontade. Se a UEFA fosse gente seria uma Miss Universo, mas quando se trata de passar das palavras aos atos é cheia de salamaleques, "ais Jesus" e "não me toques". Na verdade, assemelha-se mais a uma casa de correção com tiques que George Orwell antecipou. Não satisfeita, recorre à artilharia pesada para proibir gestos, ainda que simbólicos, por parte de quem ousa promover aquilo em que ela própria, supostamente, acredita, mesmo que o organismo do futebol considere estarmos "apenas" a falar de direitos humanos.
Mas o que mais assusta é o poder da UEFA. E o que vem com ele. A polémica a propósito da Hungria, a neutralidade da UEFA e a forma como a moeda boa do futebol se indignou com as leis daquele país que discriminam as orientações sexuais e a identidade de género fora da "tradição" e da "norma" revelou a verdadeira face daquele organismo e a sua real missão neste mundo: subjugar estados e estádios em qualquer naco de terra europeu, em nome do negócio, da paz podre, da diplomacia do status quo e de um futebol politicamente asséptico, inodoro e incolor. Como se isso existisse, não é? Como se o futebol não tivesse, ele próprio, tanto armário por abrir e não fosse reflexo da sociedade que temos ou ambicionamos, soneto de felicidade de 90 minutos (ou mais) feito da chama de um amor breve, "infinito enquanto dure" e moldura humana dos nossos sonhos, fidelidades e contradições.
Estava eu nisto quando esbarrei na última edição da revista GQ, que faz capa com José "Still the One" Mourinho. O que aí se lê é uma boa entrevista a propósito da mudança do treinador para Roma, mas onde o mais importante está nos detalhes. O técnico português já tinha dado muitas lições, nunca uma sobre jornalismo, integridade e fake news (que eu saiba). Ele, que só tem Instagram e não lê comentários, fala dos excessos de linguagem e da violência do discurso nas redes sociais para lembrar o que, entretanto, se perdeu. Diz ele: "A maioria da imprensa, que antigamente era imprensa escrita, era uma imprensa de muito maior responsabilidade, eram artigos assinados. E eu acho que tem anexado a isso uma ética que hoje não existe". José Mourinho embala e desmonta as redes sociais naquilo que elas têm de mais perverso, de mentira, de intriga, especulação e falta de escrutínio "porque não existe nenhum tipo de responsabilidade à volta disso". E adverte: daí ao Twitter e ao Instagram anónimos é um passo para os ataques racistas, xenófobos e homófobos que, apesar do esforço de clubes, atletas e treinadores, contaminam a sociedade. E isso "só os gigantes do social media podem proteger", desafia.
Se pensam que isto não está relacionado com o que foi dito atrás sobre a UEFA, desenganem-se. Em tempo de trincheiras e fanatismos, a neutralidade é a gestão das conveniências. Pelo seu percurso, José Mourinho prova que está sempre à frente do seu tempo. Pelo seu discurso, não se esconde do tempo em que vive. A UEFA, essa, continua, sem decoro, a gerir a sua própria ditadura e a condicionar algumas democracias. Quem se lhe opõe?
