RUGIDOS DO LEÃO - O Benfica cavou um fosso de mais de 120 milhões de prémios da UEFA, isto sem falar nas transferências. Não é possível competir nestes termos.
Um dos erros históricos das lideranças sportinguistas foi não terem percebido que o crescimento do Porto nunca seria feito à custa do Benfica, mas sim do próprio clube. Depois de perder a liderança nos anos 60/70, o Sporting viu-se relegado para um terceiro lugar que não representa o seu peso social na sociedade portuguesa. São os adeptos do Sporting que mantêm o clube agarrado ao topo do futebol português pois há muito que os resultados desportivos não são condizentes com a grandeza do clube. Cabe-nos recuperar o nosso lugar, o que terá inevitavelmente de ser feito à custa do Porto. E existem motivos para chegar a esta conclusão.
Desde logo, a liderança do Porto está no fim da linha. Pinto da Costa é um líder histórico e que levou o Porto para patamares inimagináveis, mas não soube afastar-se na altura certa e, sobretudo, abrir o espaço para uma sucessão e liderança forte. O Porto vive à sombra dos êxitos passados, à espera a qualquer momento do decaimento do seu presidente. Por outro lado, o Porto depende, como nenhum outro clube, do sucesso desportivo. Sem o mesmo, o clube voltará rapidamente a cair nas malhas do fair-play da UEFA, sendo que o recente insucesso representa uma perda financeira significativa e um grande rombo na estratégia portista. O Porto é, pois, um alvo apetecível e a nossa recuperação desportiva e financeira terá de ser feita à custa do nosso rival. E significa assegurar um lugar de acesso à Champions nos próximos anos.
Uma das maiores catástrofes de Alcochete deriva da circunstância de ter sucedido no primeiro ano de vigência do novo quadro financeiro da Liga dos Campeões. Uma coisa é perder cerca de 20 a 25 milhões de euros para os rivais, outra é perder entre 60 a 70 milhões por ano. Nos últimos dois anos, o Benfica cavou um fosso de mais de 120 milhões de prémios da UEFA, isto sem falar nas transferências. Não é possível competir nestes termos. Portanto, o projeto desportivo do Sporting tem de assentar, primordialmente, em assegurar nas próximas épocas um lugar na Champions, acrescido da valorização de ativos e, consequentemente, o reequilíbrio financeiro e a capacidade de reinvestir na equipa de futebol.
Muitos ao lerem estas linhas dirão que falta ambição. Outros pensarão que é preciso atacar a hegemonia benfiquista que asfixia o futebol em Portugal. A estas críticas direi apenas que o sucesso se constrói passo a passo e que são precisos anos para criar uma cultura vencedora numa equipa e num balneário. Antes de chegar ao topo, é preciso destronar quem está acima de nós.
Vai ser preciso muito sangue frio em Alvalade, pois é difícil viver perante o sucesso do nosso rival. É preciso falar verdade e assegurar um projeto desportivo que seja agregador. Bruno de Carvalho sobreviveu a um tetra benfiquista porque conseguiu criar a convicção que o sucesso desportivo estava ali ao virar da esquina. E para tal sempre contou com o respaldo de grandes técnicos, seja Leonardo Jardim, Jorge Jesus ou mesmo Marco Silva. E viveu ancorado a uma comunicação populista e agressiva que transmitia uma mensagem de combatividade que os sportinguistas apreciam. Varandas não tem nada disto e teima em desvalorizar a importância da comunicação. Sem carisma pessoal, sem comunicação e sem um técnico capaz de o proteger, Varandas está demasiado exposto ao sortilégio da bola no poste. É um risco.
Notas finais. António Salvador denunciou aquilo que está à vista de todos. O Benfica controla por completo o futebol em Portugal, comprando e distribuindo benesses pelos mais pobres. Talvez se perceba melhor hoje a teia de influências e a política de empréstimos do clube da Luz. Por falar no nosso rival, um vice-presidente foi violentamente atacado pelo diretor de jornal do clube. O Record aflorou o tema, o Pravda ignorou. O que seria se um tal episódio tivesse ocorrido pelas bandas de Alvalade. É assim que se constrói a estabilidade e para isso é sempre bom ter um jornal de propaganda.
