DENTE DE LEÃO - Opinião de Marcos Cruz
Aproveitando o facto de o Sporting jogar apenas hoje, repego num tema que aflorei há uma semana e me vai preocupando, tanto mais que acabo de perder quase uma hora a ver uma partida aborrecidíssima da equipa B contra o Real Sport Clube de Massamá, onde ficou claro que há falta de "pica" e da envolvência táctica que potencia a criatividade, como se os atletas - alguns deles já utilizados na formação principal, casos de Esteves, de Rodrigo Ribeiro ou de Essugo - vissem ali uma etapa que têm de gramar para ascender ao patamar que os motiva.
Podem contestar-me dizendo que o Sporting é dos clubes do nosso campeonato a aproveitar mais craques das camadas jovens, mas até isso me parece uma ideia feita. Se pensarmos no Porto vêm-nos imediatamente à cabeça Fábio Vieira, João Mário e Vitinha, todos eles peças importantes para Sérgio Conceição e a caminho de uma titularidade incontestável, quem sabe até na equipa das quinas.
O Benfica tira rendimento de Paulo Bernardo, Gonçalo Ramos, Henrique Araújo e Diogo Gonçalves.
Já o Sporting faz uso de Inácio e Bragança e, às pinguinhas, lá vai metendo Esteves, Essugo e Nazinho - incluir aqui Palhinhas e Esgaios seria descabido, pela idade.
Mas a questão que mais me interessa ver respondida é a seguinte, e volto a ela depois de na passada crónica a ter colocado: quem quiser acompanhar o crescimento dos nossos jovens futebolistas deve fazê-lo tirando o cavalinho da chuva quanto a conquistar campeonatos? É que, do outro lado da segunda circular, ainda esta semana li um responsável pela formação a advogar a filosofia de "crescer a ganhar", coisa que no Sporting parece ser secundária, quando se ouve o discurso dos seus treinadores, nomeadamente os dois Filipes (Çelikkaya e Pedro), das equipas B e sub-23.
Mas se o futebol fosse atraente, ligado, contínuo, empolgante, qualquer adepto compreenderia que as vitórias nos fugissem com alguma frequência, até porque muitos dos jogadores estão a competir acima do seu escalão. Daria gosto assistir aos jogos e tirar notas sobre o talento deste ou daquele projecto de craque. Assim não.
Assim é um bocejo só, com sorte interrompido por um lance de génio caído de pára-quedas. Há que puxar pela alma de quem sonha ser futebolista profissional e aproveitar essa ilusão para que o entusiasmo se espelhe em campo e contagie os que sofrem cá fora. O crédito do "melhor clube formador em Portugal" não é eterno.

