"O Braga faz-me lembrar a fábula da formiga e do elefante quando olha para o Sporting"
RUGIDOS DO LEÃO - Opinião de Samuel Almeida
1. Muitas das críticas formuladas sobre o funcionamento da liga profissional de futebol decorrem do seu deficiente modelo organizativo. O quadro legal do desporto está regulado em vários diplomas, seja a Lei de Bases do Desporto, o regime jurídico das federações, ou o regime jurídico e fiscal das sociedades desportivas.
Um dos problemas que me parece óbvio é que o associativismo assente na descentralização - pilar em que está assente o edifício do desporto -, mostra-se desajustado no quadro de competições profissionais sem que sejam implementados mecanismos de controlo e independência dos órgãos.
13213973
Com efeito, o que observamos atualmente é que os clubes - os quais têm assento direto no conselho de administração da Liga, em particular os 3 grandes - acabam por se autorregular, exercendo uma influência significativa na eleição dos órgãos que supervisionam a competição, assim como nos quadros competitivos e sancionatórios.
Como é bom de entender, o atual sistema propicia um funcionamento transversalmente opaco da competição e dos seus órgãos. Os clubes elegem o presidente da Liga, controlam o seu conselho de administração, elegem os órgãos disciplinares, os observadores, num claro conflito de interesses material, ainda que formalmente, todos os órgãos sejam independentes. A isto acresce a entropia da arbitragem estar na FPF, quando lhe cabia estar na Liga.
2. Se juntarmos a tudo isto, um regime deficiente e incompleto de registo de incompatibilidades, impedimentos, bem como de detenção de interesses significativos em entidades envolvidas nas competições, temos o contexto perfeito para a suspeição, de um lado, e para a falta de integridade e transparência das competições e o corporativismo exacerbado de certos agentes desportivos - seja a arbitragem ou treinadores.
Juntemos a isto a desregulação completa do mercado de transferências - com agentes sujeitos a pouco escrutínio, detenção de interesses em clubes e comissões proibitivas - e temos o cenário ideal para o deficiente funcionamento das competições. Não aprendemos - nem mudamos nada - com o apito dourado, os emails, as ofertas a árbitros, as toupeiras, as pressões nas classificações de observadores e árbitros, treinadores e jogadores capturados por empresários ligados a clubes, transferências encapotadas, SADs detidas por capital obscuro e clubes ligados entre si por acionistas escondidos e acordos secretos.
13213778
O caso pornográfico do Aves é apenas a ponta do icebergue, com contratos escondidos em casa de dirigentes. Ou dirigentes desportivos acusados de crimes contra o sistema judicial envolvidos em transferências de jogadores. Este quadro conhecido de todos exigiria uma intervenção pública, que não ocorre por falta de coragem política.
A Secretaria de Estado do Desporto há muito que é habitada pelo fantasma da ópera, o qual ocasionalmente lá aparece nas tribunas presidenciais. Neste sistema autoregulado, ganha quem está instalado no poder. Quem está de fora do sistema, protesta em vão, numa roleta viciada. José Manuel Constantino, embora noutra perspetiva, alerta para estes perigos num excelente artigo no Negócios esta sexta-feira a propósito da reforma do regime jurídico das sociedades desportivas. Para um modelo alternativo, recomendo a todos a leitura do Premier League Handbook, o documento que regula todo o funcionamento da liga inglesa - www.resources.premierleague.com.
3. Voltando ao futebolzinho cá do burgo, Carlos Carvalhal - treinador que muito prezo - não resistiu ao complexo da formiga que ataca quem representa o Braga. O Braga faz-me lembrar a fábula da formiga e do elefante quando olha para o Sporting. E este complexo de menoridade leva até gente boa como o Carlos a cair no ridículo e a esquecer quem lhe deu de comer e projeção. Uma pena, ainda que não seja o único. Deve ser requisito imposto pelo presidente insolvente. Felizmente que o capitão do Braga, o Ricardo Esgaio, esteve à altura da sua formação.
13213989
4. Depois de ver a arbitragem de sábado com o Braga em Alvalade, liguei pelas 23h para o Conselho de Arbitragem para ter a opinião dos seus membros. Estranhamente ninguém atendeu, parece que só estão atentos aos lances do Coates.
Queria também saber qual a sanção para um jogador rasgar a camisola e voltar ao campo, mas parece que o olho clínico de Vila Nova de Famalicão se perdeu. O Duarte Gomes que se mostrou preocupado com a perda de credibilidade do setor com as últimas arbitragens, que relaxe, pois essa há muito que não existe.
Nota final. A equipa do Sporting deu uma prova de vitalidade, compromisso e atitude na Choupana. Ao fim de muito tempo, voltamos a ter uma equipa que tem honrado os pergaminhos da listada verde e branca e o lema do clube: Esforço, Dedicação, Devoção e Glória. A Glória está ainda longe, mas o resto está lá e já é motivo para nos devolver o sorriso.
