DESCALÇO NA CATEDRAL - A opinião de Jacinto Lucas Pires, todos os domingos em O JOGO
Escrevo esta crónica embrulhado num cachecol, recebido pelo Natal, que diz só "1904" - para me lembrar que o Benfica é muito antigo e maior do que as circunstâncias; que já resistiu a muito erro e também há de resistir às asneiras desta Direção e deste treinador.
Então a equipa que ia jogar o triplo ainda não se encontrou minimamente passados cinco meses e muitos milhões de euros?
Não, caros amigos, o Benfica não é isto. Ir buscar o treinador que saiu para o Sporting de Bruno de Carvalho, destratando o Glorioso, para jogarmos assim? Engolir o sapo monumental para cairmos da Liga dos Campeões, tropeçarmos no campeonato e perdermos a Supertaça? Gastar milhões e mais milhões para não conseguirmos mostrar uma ideia de jogo digna desse nome? Começar uma propaganda de sobranceria, de que vamos jogar o triplo, pôr o "ferrari" a acelerar e arrasar a concorrência, para a montanha parir um rato? Aguentar um técnico que se julga acima de todos, que trata mal colegas de profissão e jornalistas, que passa as culpas para os jogadores quando as coisas correm mal e chama a si os louros quando as coisas correm bem, e nem sequer termos uma amostra de futebol a sério? É incompreensível a margem que a maior parte dos especialistas continua a dar a Jorge Jesus. Então a equipa que ia jogar o triplo ainda não se encontrou minimamente passados cinco meses e muitos milhões de euros?
O futebol não se joga a abanar currículos. Joga-se na relva, a fazer golos, a pressionar, a arredondar a bola amiga. Viu-se na Supertaça, não é verdade? Temos um futebol lento e pesadão, um futebol-clichê de bola aquadrada, sem ânimo para pressionar na defesa e sem alma para surpreender no ataque. Falta alegria, caramba. Não sei se sentiram o mesmo, caros amigos, mas, depois daquele segundo golo do FC Porto, só me veio à lembrança aquele Jorge Jesus caído de joelhos no Dragão... Chamemos-lhe o fantasma do Natal passado, chamemos-lhe como quisermos.
O que é que querem mais, senhores manda-chuvas do meu clube? Mais tempo? Mais compras de milhões? E mais quantos títulos perdidos?
A desgraça da Supertaça deu para confirmar o que temos visto jogo atrás de jogo. Jorge Jesus no Benfica já era má ideia à partida - vê-se agora que não é melhor ideia à chegada. Para quem apostou tudo na hipótese supersticiosa de que a equipa mais desinspirada é que ganha estes embates clássicos - bem, nem isso funcionou.
O que é que querem mais, senhores manda-chuvas do meu clube? Mais tempo? (O quê, temos de esperar pelas próximas eleições, é isso?) Mais compras de milhões? E mais quantos títulos perdidos? Uma vez que parecem apreciar tanto os treinadores do Sporting, podiam ir buscar Rúben Amorim - que sabe apostar nos novos artistas, na prata da casa e, sem conversa fiada, construir equipas que transpiram alegria. Ou alguém como ele. Um treinador que sinta a honra de treinar o Glorioso e que saiba pôr o Benfica, como se diz em bom futebolês, a "jogar à bola".
