PONTAPÉ NA CANELA - A crónica de Carlos Machado
Para o Bayern Munique, a única novidade do confronto recente com o Barcelona foram os números, porque 8-2 é uma cifra estranha, mas entre os jogadores da equipa alemã a ideia de golear o colosso catalão estava presente.
O Bayern sabia que golearia o Barcelona como o FC Porto de 1987 sabia que ganharia ao Bayern
Havia até entre eles quem antes da partida mandasse para o ar palpites de 5-1 e os mais novos só estavam preocupados se seriam capazes de ganhar a Champions, sem nunca lhes passar pela cabeça não estarem na final. Tudo isto foi contado por Lewandowski numa entrevista ao portal polaco "Onet.pl". Na mesma entrevista reivindicou o direito de ser Bola de Ouro e nem sequer lhe fica mal ser ele a fazê-lo.
A superioridade do Bayern sobre o Barça não era uma questão de fé ou de esperança, mas de conhecimento próprio e alheio. E de crença e confiança! A equipa sabia quais os caminhos a percorrer e acreditava nela própria, no trabalho feito, na capacidade para o pôr em prática e obter o desfecho lógico: ganhar.
Este episódio remete a outro com o Bayern Munique a 27 de Maio de 1987. O FC Porto deserdado nas casas de apostas entrou no Prater sabendo tudo sobre o favorito alemão. Como contou Artur Jorge na evocação dos 15 anos sobre a primeira Orelhuda portista, o grupo sabia o que valia, sabia que era melhor e só precisava de seguir o trilho mil vezes estudado. Não era uma questão de fé, era de certeza e de confiança.
A inexperiência internacional mexeu com o acreditar e a certeza vacilou durante 45 minutos, mas bastou a injeção de ânimo ao intervalo, uma simples e dura chamada à realidade, para tudo acontecer como tinha de ser. Ganhou quem era melhor, não quem tinha mais apoio popular ou expressão mediática. Flick, agora treinador do Bayern, estava lá como testemunha privilegiada.
Há pouco mais de um ano, o FC Porto foi à Luz em condições tidas por adversas, mas não o eram de facto. A derrota com o Gil Vicente na primeira jornada foi uma chamada de atenção e agitou os demónios de 2018/19, com os sete pontos de avanço e o título perdidos para o Benfica, mas não mexeu com a equipa.
12565373
Aos primeiros minutos a de bola a correr percebeu-se a existência de uma estratégia e um desempenho a condizer. Uma equipa solidária, confortável com o modo de jogar, confiante e crente naquilo que fazia, a provocar a incerteza no adversário até deixá-lo perdido num mar de dúvidas. Ganhou quem foi melhor.
Poucos meses antes, sem pressão mediática, acreditando muito no trabalhado desenvolvido, o Benfica de Lage tinha feito um percurso notável. É assim, o futebol. O Barcelona de Messi, Piqué e Suárez também já fez coisas fantásticas, mas quando entrou na Luz para defrontar o Bayern só lhe restava a fé na genialidade de Messi, porque no trabalho já ninguém acreditava.
