Um artigo de opinião de Ricardo Nascimento
O ponta-de-lança é o único trabalhador que pode falhar quatro vezes seguidas e, à quinta, ser promovido a herói nacional. É uma carreira construída sobre a ideia profundamente portuguesa de que "agora é que vai ser".
O avançado vive num estado permanente de promessa: não interessa o que fez há cinco minutos, interessa o que pode fazer no próximo lance. É, no fundo, um vendedor de futuros.
Enquanto o guarda-redes é avaliado como um cirurgião ("não pode falhar"), o ponta-de-lança é avaliado como um poeta ("há dias..."). Pode passar o jogo inteiro a tropeçar na bola, mas basta um toque de calcanhar que falhe por dois metros e alguém diz: "Viu-se a intenção". A intenção, no futebol, é uma moeda estranha: ao avançado aceitam-na; ao central chamam-lhe "desconcentração"; ao guarda-redes chamam-lhe "frango".
O ponta-de-lança tem uma relação especial com o trabalho coletivo: gosta muito... desde que seja para o servir. Ele vive para transformar trabalho coletivo em estatística pessoal. Onze jogadores constroem uma jogada com suor e geometria, e ele aparece no fim como aquele amigo que chega à mesa quando o jantar já está feito e pergunta: "Então, quem é que cozinha aqui?" A bola entra e ele celebra como se tivesse resolvido um problema de física quântica. A bola não entra e ele protesta como se a baliza tivesse mudado de sítio.
E depois há o aspeto mais misterioso da profissão: a solidão no meio da multidão. Um ponta-de-lança está sempre acompanhado - por centrais, laterais, médios, pelo árbitro, pela ansiedade do estádio - e mesmo assim está sozinho. Porque, na hora H, é ele e a bola, como num exame oral em que a pergunta é sempre a mesma: "Faça golo". Se acerta, é génio. Se falha, "não tem qualidade para este nível", frase que os adeptos dizem com a mesma facilidade com que falam de investimentos imobiliários.
O ponta-de-lança tem ainda um talento secreto: o de transformar qualquer toque num debate. Se cai, é penálti; se não cai, "faltou malícia". Ele está sempre num ponto intermédio entre atleta e ator - não por falta de dignidade, mas porque o sistema recompensa o drama. No futebol moderno, o avançado não procura apenas a baliza: procura também a narrativa. E a narrativa, às vezes, vale mais do que o remate.
O estádio olha para ele como se fosse uma máquina de milagres: "Basta uma." Uma bola. Um ressalto. Um desvio. Um golo feio. E o futebol, essa religião sem teologia coerente, perdoa tudo ao seu sacerdote desde que ele faça o ritual final: empurrar a bola para dentro.
No fim, o ponta-de-lança é isto: um homem pago para estar no sítio certo no segundo certo - e convencer-nos, durante 90 minutos, de que o segundo certo está mesmo a chegar.

