DESCALÇO NA CATEDRAL - A opinião de Jacinto Lucas Pires, aos domingos n'O JOGO.
No treino de sexta-feira, em Budapeste, os guarda-redes seguraram a camisola dele e a Seleção fez silêncio.
13831101
Morreu Neno, o grande Neno que os amantes do futebol nunca esquecerão, e a crónica junta-se a esse silêncio da equipa de todos nós. Neno fica para sempre. Era um guarda-redes com essa qualidade, cada vez mais rara, chamada "estilo"; mas era também uma figura pública com a coragem, cada vez mais rara, de escolher a alegria. Neno: só o facto de o conhecermos assim, por um "nominho", como alguém muito cá de casa, diz tudo. Foi guarda-redes do Benfica, sim, mas não é por isso que esta crónica o homenageia. É que ele foi um grande - é um grande, que os grandes não morrem -, um campeão da graça e da generosidade. Essa generosidade tão necessária para que o futebol seja o lugar vivo da infância, o vocabulário da amizade, um espaço livre da tralha cinzentona do quotidiano. A generosidade da alegria! Parece irónico que a morte de alguém nos possa ensinar a alegria. Por outro lado, não será exatamente isso que poderemos resgatar ao sem-sentido da morte? De um momento para outro, acordamos para a fragilidade da vida; isto dura tão pouco, mais vale ser feliz no processo, não?
Não sou fã do 4-2-3-1 da seleção nem do futebol de caldos-de-galinha de Fernando Santos, mas há coisas mais importantes do que o desenho tático
Mas perdoem-me a filosofice, queridos leitores - salto já para dentro das quatro linhas. E insisto na alegria: ela é o grande segredo para a Seleção dar tudo o que tem. Topou-se isso, aliás, nos dois amigáveis. Se pusermos o fato carrancudo de "ir para o trabalho", como fizemos com a Espanha, não jogaremos apenas menos "bonito" - poremos em cheque a identidade do nosso "futebol de rua" e arriscaremos derrotas. Se, pelo contrário, nos atirarmos para a dança de coração aberto, como fizemos com Israel - aí sim, arriscaremos ser felizes, que é a melhor forma de ganhar. Claro que também há a outra equipa e não é igual jogar com a Hungria ou com a França... Por outro lado, somos campeões europeus, caramba, temos de tentar definir a música de cada encontro.
Como já escrevi aqui, não sou o maior fã do 4-2-3-1 desta seleção nem, em geral, do futebol de cuidados-e-caldos-de-galinha de Fernando Santos, mas há coisas mais importantes do que o desenho tático. Por exemplo, transportarmos essa alegria para o nosso jogo. Por exemplo, não jogarmos para os recordes de Cristiano. Por exemplo, tentarmos "ganhar a bola" mais do que apenas "defender"...
O Euro é sempre uma espécie de recomeço, não é? De novo, somos miúdos sonhadores, as equipas não têm publicidade nas camisolas e o futebol volta a ser a vida toda. Mas este Euro é ainda mais especial. Trata-se do momento de chuteiras da Europa, durante um tempo difícil de mortes e distância. Isso exige-nos nada menos do que alegria - não há coisa mais séria.
