DENTE DE LEÃO - Opinião de Marcos Cruz
Foi, talvez, o jogo mais tranquilo que o Sporting fez esta época. O resultado pode não o expressar, mas a equipa esteve muito equilibrada em toda a primeira parte, não permitindo nada ao Tondela e reduzindo o campo a quase metade, com investidas interessantes do trio da frente, cuja mobilidade confundiu desde cedo os defesas da casa.
Um homem a meio campo ia ditando leis, Ugarte, a recuperar e a construir. Ao lado dele, Matheus Nunes desempenhava competentemente o seu trabalho, mas ainda assim sem se aproximar do brilho que levou Guardiola a incensá-lo. Porro e Matheus Reis até estiveram desinspirados, ofensivamente, quem sabe também porque o ataque da equipa pedia ontem um jogo diferente, com menos cruzamento.
Só que um homem cá de trás deu à máquina o golpe de asa e tornou-a letal, num remate potente e colocado em rampa ascendente, de fora da área, que teve o condão de inchar o peito da equipa e de a apontar a mais.
O mais que veio a seguir, fruto de uma jogada perfeita de PES (Pote, Edwards e Sarabia), pura Playstation. Estava a questão arrumada, nem era preciso vir mais um penálti típico da arbitragem portuguesa, que talvez requeira aulas de anatomia, a ver se aprende que o pessoal tem braços.
O Tondela não mostrava a mínima capacidade de ligar jogo, quanto mais de criar lances de perigo. E assim se chegou, com 3-0, ao intervalo.
A partir daí, a cena irritante do costume: baixou-se a intensidade, perdeu-se entusiasmo e fez-se pelo outro o que o outro não conseguia fazer por si mesmo. Resultado: chegou o golinho de honra, ainda que num cabeceamento felicíssimo, sem tirar mérito ao seu autor. E quando eu pus a hipótese de o Tondela brotar, finalmente, do nada que tinha sido, a toada morna regressa, para me complicar a luta com o sono.
Assim se chegou ao instante do último apito, que selou uma vitória sem história, daquelas que se esquecem mas sabem bem.
A Champions estará, a meu ver, garantida, e a ilusão da reconquista do campeonato, ainda que ingénua, não se deixa apagar.
Uma última nota para dois momentos no decurso do jogo: um primeiro quando Sarabia diz ao árbitro para esquecer a garrafa de água que veio da bancada para perto de si - é verdade, quanto mais importância dermos à estupidez mais ela prolifera; e um segundo para os cânticos de "Benfica é merda" com que a claque sportinguista quis estragar a noite.

