DESCALÇO NA CATEDRAL - A opinião de Jacinto Lucas Pires, aos domingos.
"Façam magia", lia-se numa parede do estádio do Estrela da Amadora. Tudo em maiúsculas, para que até o avançado mais pitosga conseguisse ler.
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O recado inspirou o Benfica nesse jogo, e aquela parede pode vir a tornar-se o monumento à descoberta do futebol desta equipa. Não é que tenhamos feito um jogo genial, mas houve uns lampejos de arte (aquele toque de calcanhar de Gonçalo Ramos a isolar Pedrinho, por exemplo) e ânimo suficiente para uma goleada. Ainda assim, esta impressão de mudança não tem a ver com o que diz o marcador, nem com nenhuma estatística. É algo mais difuso e misterioso, que até pode escapar aos analistas, mas que todo o adepto sente. Claro que, por estar no começo do começo, tudo isso é delicado e frágil. Se a semente de algo novo não é regada, o novo não chega a ser algo. Perdoem-me o tom levemente bíblico, caros amigos, mas, é do Glorioso que falo, afinal de contas. O que me leva a saltar para o clássico de anteontem.
Foi um jogo estranho, com poucos espaços mas bastantes oportunidades, ao mesmo tempo passional e cerebral. Não, o Benfica não levou nenhuma "parede mágica" para o Dragão - mas mostrou uma melhor atitude de pressão, na defesa, e um estilo mais livre e decidido, no ataque. Melhorias que é justo personificar em Julian Weigl e Rafa Silva. Se Weigl foi considerado o homem do jogo pela intuição matemática como futebolou sem bola, Rafa foi o melhor pelo rigor poético do seu futebol com ela. (Parece que estou a falar de copos de ginginha, não é verdade? "Quer com ela ou sem ela?", pergunta o barman. Mas - regressando a sexta-feira.)
Não, o Benfica não levou nenhuma "parede mágica" para o Dragão - mas mostrou uma melhor atitude de pressão, na defesa, e um estilo mais livre e decidido, no ataque
A ideia de mudar o corredor esquerdo funcionou. É um velho truque de Jesus: usar laterais como alas e alas como laterais. Desta vez, no entanto, o técnico foi mais longe. Anda para aí uma discussão sobre se foi uma opção defensiva ou ofensiva. A verdade é que foi defensiva e ofensiva. Com Nuno Tavares e Alex Grimaldo no corredor, o Benfica ganhou dois laterais para defender e dois alas para atacar. É uma ideia que vai para a coluna dos positivos. Por outro lado, na coluna dos negativos, não podemos deixar de registar uma dramática falta de atenção nas bolas paradas...
Mas, sim, este pode ser o momento de viragem. A goleada ao Estrela não basta para carimbar um atestado de bom futebol, mas o empate com o FC Porto também não serve para negar a mudança em curso. Agora, o treinador tem de ajudar! É incompreensível que venha dizer coisas como: "Ainda não consegui pôr esta equipa com os fusíveis todos ligados." O futebol não é um interruptor que um técnico acenda e apague - o futebol são os craques no relvado. Talvez Jesus pudesse voltar à Amadora para ler a lição na parede. "Façam magia."
