Não estamos a pegar pelo lado certo se assumirmos as dores de Kroos ou Pep Guardiola
TEORIA DO CAOS - A crónica de domingo de José Manuel Ribeiro
O que têm em comum Guardiola, Klopp, Toni Kroos ou o Atlético de Madrid? Fazem parte do "top 1%" do futebol profissional. Estão entre os mais privilegiados dos privilegiados. Apesar disso, todos levámos a sério as queixas que fizeram nesta paragem para as seleções.
Vamos pedir-lhes que paguem pela crise mais do que os outros?
Algumas até achámos corajosas. Toni Kroos, médio alemão do Real Madrid, revoltou-se contra as competições que UEFA e FIFA continuam a atafulhar no calendário, sem respeito pela "saúde dos jogadores". Em Espanha, escreveu-se que mostrou "huevos".
Kroos fez 49 jogos em 2019/20, menos de um por semana, e recebeu 250 mil euros por cada um deles. Um nadador ou fundista olímpico treina cerca de seis horas por dia, seis dias por semana, doze meses por ano.
Provas como a Liga das Nações, que ele criticou, permitem melhorar a famosa redistribuição de receita por federações mais pobres, e o Real Madrid tem no plantel 270 milhões de euros em médios que podem (devem) dar descanso a Kroos. Faria mais sentido que ele se revoltasse contra Zidane ou contra o selecionador alemão, que "só" dispõe de 1,6 milhões de futebolistas federados, dez vezes mais do que Portugal.
O calendário internacional, o abuso físico dos futebolistas e a avareza de FIFA e UEFA são doenças reais e graves, talvez terminais, mas não estamos a pegar no assunto pelo lado certo se assumirmos as dores de alguém como Kroos ou Pep Guardiola. No caso deste, a revolta deu-se porque os clubes da Premier League decidiram não adotar a norma temporária de alargar para cinco o número de substituições por jogo, invocando que isso beneficia os mais ricos.
Apenas nos quatro defesas laterais, Guardiola gastou perto de 200 milhões de euros, para mencionar uma posição de alto desgaste. Ele não está a atacar uma injustiça que lhe fazem; está a defender o direito a exercer um privilégio sobre os adversários.
Preferiam os Portugais-Andorra que antes ocupavam essas datas, para não cansar o pobre do Toni Kroos?
O Atlético de Madrid, como Jesus no Benfica, consegue defender uma causa de aparência nobre e difícil de contestar: os internacionais uruguaios voltaram quase todos da seleção infetados com covid-19. O desleixo nalgumas federações latino-americanas é óbvio e a FIFA devia ter-se preocupado com isso (bem como os jogadores, já agora).
Defender que as seleções deviam estar paradas durante a pandemia porque são potenciais canais de transmissão entre países e continentes não é estúpido, mas, mais uma vez, isso significa ver o problema apenas pelo lado dos mais privilegiados. Isolar uma dúzia de jogadores por quinze dias não pode ser visto como um preço demasiado elevado pela sobrevivência do futebol de seleções, em particular numa parte de mundo que tem vindo a ser, gradualmente, expulsa da elite do jogo.
A Europa tira-lhes os melhores jogadores, tirou-lhes até os amigáveis em que podiam medir-se com os europeus e as sequelas económicas da pandemia são tão ou mais graves do que as sofridas neste continente. Vamos pedir-lhes que paguem pela crise mais do que os outros?
E há, finalmente, um personagem do filme com o qual nenhum destes queixosos se preocupou. O que interessa a quem paga o futebol? Os adeptos desejam um Manchester City e um Liverpool ainda mais privilegiados na liga inglesa? Querem menos futebol de seleções?
Gostarão da Liga das Nações ou preferiam os Portugais-Andorra que antes ocupavam essas datas, para não cansar o pobre do Toni Kroos? Os latino-americanos abdicariam, heroicamente, de ver Messi, James, Neymar ou Suárez defender as suas camisolas durante seis, sete ou oito meses (mesmo só pela televisão) para não aborrecer os privilegiados do futebol europeu? Sobretudo, entre esta gente toda, quem precisa mais de voz e compreensão?
